No sagui-de-tufo-branco, também chamado de soim, cuidar dos bebês é trabalho de família — e o pai assume um papel fundamental desde as primeiras horas de vida.
Quem já viu um soim com um ou dois filhotinhos agarrados às costas talvez tenha imaginado apenas uma cena de carinho. Mas, para o sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), carregar os pequenos é parte de uma estratégia de sobrevivência muito mais complexa.
Nessa espécie, o pai participa intensamente dos cuidados desde o nascimento. Ele ajuda a transportar os bebês, protegê-los e, mais tarde, participa até da transição para os alimentos sólidos. E não está sozinho: irmãos mais velhos e outros integrantes do grupo também podem entrar em ação. É o que os pesquisadores chamam de criação cooperativa.
“Um dia, eles vão deixar as costas do pai. Até lá, aquele pequeno corpo funciona como abrigo, transporte e proteção.”
Por que o pai sagui carrega os filhotes?
Uma das respostas está no tamanho do desafio enfrentado pela mãe. Os saguis frequentemente têm dois filhotes por gestação. Somados, os recém-nascidos podem representar entre 20% e 27% do peso da mãe. Para um primata pequeno que ainda precisa produzir leite, se alimentar e se deslocar pelas árvores, carregar os dois o tempo inteiro teria um custo enorme.
É aí que o pai entra em ação. Os machos podem começar a carregar os filhotes já no dia em que eles nascem. Durante a primeira semana, o pai pode passar, em média, cerca de metade do tempo responsável pelo transporte dos bebês.
Nessa fase inicial, ele aparece como um dos principais cuidadores, embora a mãe e os demais integrantes da família também participem. As costas do pai sagui não são apenas um lugar confortável, elas ajudam a dividir um trabalho fisicamente pesado.

Carregar dois bebês tem um preço
E pesado aqui não é modo de dizer. Em um experimento com saguis-de-tufo-branco, pesquisadores testaram o efeito de diferentes cargas sobre a capacidade de salto dos animais. Quando carregavam 65 gramas, aproximadamente o peso combinado de dois recém-nascidos, a distância que conseguiam saltar diminuía, em média, 17%.
Isso pode influenciar atividades essenciais para um animal arborícola, como procurar alimento ou fugir de ameaças. Então, quando pai, mãe e outros membros do grupo revezam os pequenos, eles também dividem esse custo físico.
Nos primeiros dias, as costas são praticamente o mundo dos filhotes
Os filhotes nascem muito dependentes. Eles possuem um forte reflexo de agarrar e, nas primeiras semanas, passam grande parte do tempo presos ao corpo do pai sagui.
Por volta da segunda semana começam a se movimentar mais sobre as costas de quem os transporta, a observar o ambiente e, a gradualmente, aventurar-se para longe do corpo dos adultos. Conforme crescem, passam cada vez mais tempo explorando sozinhos.
Um dia eles descem das costas do pai. Antes disso, é dali que começam a conhecer o mundo.
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E o trabalho do pai não termina quando o filhote desce
O transporte talvez seja a parte mais visível, mas o cuidado do pai soim vai além. Pesquisas com Callithrix jacchus mostram que o pai sagui também lambe e cuida dos recém-nascidos, além de ser responsável por proteger e chamar de volta os filhotes.
Durante o desmame, os pais participam da oferta de novos alimentos, tendo um papel especialmente importante na introdução dos primeiros alimentos sólidos.
Um estudo conduzido com saguis em uma colônia de pesquisa encontrou ainda uma relação entre pais mais responsivos aos chamados dos filhotes e maior sobrevivência e crescimento da prole. Os autores destacam que a qualidade do cuidado paterno pode ter consequências reais durante as primeiras semanas de vida.
É importante observar que parte desses dados vem de animais mantidos em ambientes de pesquisa, mas eles ajudam a compreender um sistema de cuidado cooperativo que também caracteriza a espécie.

Pai, mãe, irmãos: criar um sagui é um trabalho de equipe
Talvez essa seja a curiosidade mais interessante de todas: apesar de o pai ter um papel extraordinário, a história dos saguis não é exatamente sobre um “superpai que faz tudo”: é sobre cooperação e rede de apoio.
Os grupos familiares contam com adultos e jovens que auxiliam no cuidado. Irmãos mais velhos podem carregar os bebês e, nesse processo, também adquirem experiência para quando tiverem seus próprios filhotes. Para uma espécie capaz de produzir dois, e ocasionalmente mais, bebês de uma vez, dividir tarefas faz uma enorme diferença.
O ICMBio registra a espécie sagui-de-tufo-branco como nativa do Nordeste brasileiro, onde “soim” é um de seus nomes mais populares.

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Fontes: ficha do ICMBio sobre o sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), sua distribuição e conservação no Brasil, estudo publicado na PLOS ONE sobre o cuidado paterno e seus efeitos na sobrevivência e no crescimento dos filhotes de sagui, informações do Wisconsin National Primate Research Center sobre reprodução, desenvolvimento e cuidado cooperativo no sagui-de-tufo-branco e estudo publicado em Animal Behaviour sobre os custos físicos de carregar filhotes em saguis.
Foto de capa: Foto: Nortondefeis/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0 (imagem recortada).

