Brasil completa dez anos sem casos humanos provocados pelas variantes clássicas de raiva associadas a cães, mas o vírus continua circulando entre animais silvestres — principalmente morcegos.
O Brasil alcançou uma marca histórica em 2026: completou dez anos sem registros de raiva humana provocada pelas variantes clássicas do vírus associadas aos cães. O resultado mostra o impacto de décadas de vacinação, vigilância e atendimento de pessoas expostas.
Mas existe uma diferença importante entre controlar a raiva transmitida por cães e dizer que a doença desapareceu.Ela não desapareceu.
O vírus continua circulando entre animais silvestres no país, principalmente morcegos, e cães e gatos podem se infectar ao entrar em contato com esses animais. É justamente esse cenário que o Dia Mundial contra a Raiva, celebrado neste 28 de setembro, ajuda a colocar em evidência.
Em 2026, a campanha internacional, que chama atenção para a data, tem como tema “Stronger Together” — “Mais fortes juntos”, destacando que a prevenção depende da integração entre vacinação animal, vigilância, profissionais de saúde, médicos-veterinários e população.
“Brasil completa dez anos sem casos humanos provocados pelas variantes clássicas associadas a cães, mas o vírus continua circulando entre animais silvestres — principalmente morcegos — e pode chegar a cães, gatos e pessoas.”
Cinco morcegos positivos em uma única cidade
Um exemplo recente vem de Piracicaba, no interior de São Paulo. O Centro de Controle de Zoonoses do município confirmou cinco morcegos com resultado positivo para raiva em 2026. Dois foram encontrados no bairro São Dimas e os demais em São Jorge, Chácara Espéria e Campestre.
O dado não significa que exista uma epidemia entre morcegos nem que esses animais devam ser temidos ou perseguidos. Ele mostra, porém, que o vírus continua presente no ambiente e reforça a importância da vigilância.
Em Piracicaba, o último caso registrado em um animal doméstico ocorreu em 2018, em um gato. Ainda assim, a presença do vírus em morcegos mantém aberta a possibilidade de exposição de cães, gatos e pessoas.

O que mudou na raiva no Brasil
Durante décadas, os cães tiveram papel central na transmissão da raiva às pessoas no país. Campanhas de vacinação em massa mudaram esse cenário.
Segundo o Ministério da Saúde, os últimos casos de raiva humana provocados pelas variantes clássicas associadas a cães ocorreram em 2013 e 2015. Desde então, os casos registrados no Brasil estiveram associados a variantes de origem silvestre.
Entre 2016 e 2026, foram confirmados 37 casos de raiva humana no país, todos relacionados a variantes silvestres. Os morcegos estiveram envolvidos em 22 deles. Também houve casos associados a primatas não humanos, raposas e animais domésticos infectados por variantes provenientes da fauna silvestre.
Ou seja: o sucesso obtido contra a antiga transmissão urbana mudou o perfil da doença, mas não tornou a vacinação dos animais domésticos desnecessária.

Se cães e gatos estão dentro de casa, por que precisam ser vacinados?
Porque o vírus não precisa chegar ao animal por meio de outro cão. Um morcego infectado pode entrar em uma residência, quintal ou varanda e ter contato com um cachorro ou gato.
No caso dos gatos, existe uma preocupação adicional: o comportamento de caça pode favorecer encontros com morcegos. O próprio Ministério da Saúde destaca que os felinos podem funcionar como uma ponte entre o ciclo silvestre da raiva e o ambiente doméstico.
Por isso, manter a vacinação antirrábica em dia protege não apenas o animal. Também reduz o risco de que um cão ou gato infectado exponha as pessoas que convivem com ele.
A vacinação foi uma das principais responsáveis pela redução da raiva urbana no Brasil. Atualmente, 23 unidades da Federação participam das campanhas nacionais de vacinação antirrábica de cães e gatos; em 2025, a cobertura nacional registrada foi de 78%.

Encontrou um morcego? Não toque
Encontrar um morcego não significa automaticamente que ele esteja com raiva. Mas alguns comportamentos exigem cuidado, como animais encontrados no chão, mortos, em locais incomuns ou ativos durante o dia.
A principal orientação é simples:
- não tocar, pegar ou tentar capturar o morcego com as mãos;
- afastar crianças e animais domésticos;
- impedir que cães ou gatos se aproximem;
- comunicar o serviço de zoonoses ou órgão responsável do município para receber orientação e, quando indicado, realizar o recolhimento.
Em caso de contato direto do morcego com uma pessoa, a avaliação por um serviço de saúde deve ser procurada o mais rápido possível. Se houve mordida ou arranhadura, o Ministério da Saúde orienta lavar abundantemente o local com água e sabão e buscar atendimento. O profissional avaliará a necessidade de vacina e, dependendo da exposição, de soro ou imunoglobulina antirrábica.
Se o contato ocorreu com um cão ou gato, o serviço de zoonoses e um médico-veterinário também devem ser acionados. A conduta depende, entre outros fatores, da situação vacinal do animal e da possibilidade de testar o morcego.

Morcegos não são vilões
O cuidado com a raiva não deve se transformar em perseguição aos morcegos. Esses animais exercem funções fundamentais nos ecossistemas. Há espécies que ajudam na polinização, na dispersão de sementes e no controle de populações de insetos, inclusive pragas agrícolas.
Além disso, existem muitas espécies de morcegos e diferentes hábitos alimentares. A presença de alguns indivíduos positivos para raiva não significa que todos estejam infectados.
A estratégia correta é evitar o contato direto e permitir que profissionais treinados façam o manejo quando necessário — não capturar, ferir ou matar esses animais.
Uma doença quase sempre fatal, mas prevenível
A raiva atinge mamíferos, incluindo seres humanos, e compromete o sistema nervoso central. Depois que os sinais clínicos aparecem, a doença apresenta letalidade próxima de 100%.
Ao mesmo tempo, ela é uma doença para a qual existem ferramentas extremamente eficazes de prevenção. A vacinação de cães e gatos, a vigilância dos animais silvestres e o atendimento rápido depois de uma possível exposição permitem interromper a transmissão antes que a doença se desenvolva.
O avanço brasileiro mostra justamente o que a vacinação é capaz de fazer: a transmissão humana pelas variantes clássicas associadas aos cães foi controlada.
Agora, o desafio é não confundir esse sucesso com o fim da raiva. Enquanto o vírus continuar circulando na natureza, manter cães e gatos protegidos continua sendo uma barreira entre a doença e nossas casas.
Leia mais: Das aves aos mamíferos: como o H5N1 atravessa espécies e amplia o alerta sanitário no mundo
Fontes: Raiva Humana — Ministério da Saúde; Raiva Animal — Ministério da Saúde; Cobertura vacinal de cães e gatos — Ministério da Saúde; Brasil completa 10 anos sem raiva humana transmitida por cães e reforça vacinação antirrábica na fronteira — Ministério da Saúde; Dia Mundial contra a Raiva 2026 — OPAS/OMS; CCZ registra mais dois casos de morcego com resultado positivo para raiva em 2026 — Prefeitura de Piracicaba; CCZ confirma primeiro caso positivo de raiva em morcego em 2026 — Prefeitura de Piracicaba; 188 espécies de morcegos são avaliadas — ICMBio.
Fontes das imagens: Prefeitura de BH promove vacinação de cães e gatos contra a raiva neste sábado (23) — Prefeitura de Belo Horizonte, CCZ reforça importância de medidas de prevenção no Dia Mundial de Luta contra a Raiva — Prefeitura de Piracicaba; CCZ registra mais dois casos de morcego com resultado positivo para raiva em 2026 — Prefeitura de Piracicaba; infográfico “Encontrou um morcego? Saiba o que fazer” — Que Papo é Esse, Bicho?
Foto de capa: Divulgação Prefeitura de Belo Horizonte (PBH)

