A fêmea produz e transfere os ovos, mas é o pai que os recebe em uma bolsa incubadora, mantém os embriões durante a gestação e expulsa os filhotes em um verdadeiro parto.
Entre os cavalos-marinhos, a pergunta “quem está grávido?” tem uma resposta capaz de virar de cabeça para baixo o que costumamos imaginar sobre maternidade e paternidade na natureza. É o macho que carrega os embriões em seu corpo e dá à luz os filhotes.
Mas ele não funciona como uma simples sacola para guardar ovos. Durante a gestação, sua bolsa incubadora cria um ambiente protegido, participa das trocas de gases e nutrientes e regula condições importantes para o desenvolvimento dos pequenos cavalos-marinhos.
Quando os filhotes estão formados, contrações musculares os expulsam em pequenos jatos. Dependendo da espécie, um único parto pode lançar dezenas ou centenas de novos animais na água.
“Antes de dar à luz, o pai cavalo-marinho transforma o próprio corpo em abrigo para uma nova geração.”
Como o cavalo-marinho macho engravida?
Tudo começa com um ritual de corte que pode durar horas ou até dias. O casal aproxima-se, nada em sincronia e pode mudar de coloração. Esses movimentos ajudam a preparar a transferência dos ovos.
A fêmea produz os óvulos e concentra neles as reservas iniciais para os embriões. Quando chega o momento, utiliza uma estrutura chamada ovipositor para introduzi-los na abertura da bolsa incubadora do parceiro. O macho libera os espermatozoides dentro da bolsa, onde ocorre a fecundação.
Depois que recebe os ovos, a abertura se fecha e a gestação começa. Ela pode durar de aproximadamente dez dias a várias semanas, dependendo da espécie e da temperatura da água.
No cavalo-marinho-de-focinho-longo (Hippocampus reidi), encontrado no Brasil, o Projeto Hippocampus registra uma média de cerca de 12 dias de gestação nas águas tropicais de Pernambuco. A NOAA utiliza uma faixa geral de duas a quatro semanas para os cavalos-marinhos.
A bolsa incubadora é um berçário vivo
Chamar esse processo de gravidez não é apenas uma brincadeira. Os embriões permanecem dentro de uma estrutura especializada do corpo do pai e mantêm uma relação fisiológica com ela durante o desenvolvimento.
O tecido da bolsa envolve os embriões e forma uma estrutura frequentemente comparada a uma placenta. Ela não é igual à placenta dos mamíferos e surgiu por outro caminho evolutivo, mas realiza algumas funções semelhantes.
A bolsa ajuda a fornecer oxigênio e nutrientes, remove resíduos e regula água e sais ao redor dos filhotes. Também se torna mais vascularizada, favorecendo as trocas entre o organismo paterno e os embriões.
Um estudo publicado em 2025 na revista Nature Ecology & Evolution mostrou que esse órgão funciona de forma análoga ao útero e à placenta dos mamíferos, embora tenha origem em tecidos diferentes. A evolução encontrou outra solução para proteger e sustentar embriões dentro do corpo de um dos pais.

Como acontece o parto
Ao fim da gestação, os filhotes já apresentam a forma característica dos adultos: focinho alongado, corpo protegido por placas ósseas e cauda preênsil. Eles são minúsculos, mas saem da bolsa já formados.
O pai entra em trabalho de parto. A musculatura da bolsa começa a se contrair e, a cada esforço, grupos de filhotes são expelidos pela abertura em pequenos jatos. Algumas espécies produzem poucas dezenas; outras podem liberar centenas e, em casos registrados, aproximar-se de mil filhotes.
Uma ninhada numerosa não significa que todos chegarão à fase adulta. Depois do nascimento, os pequenos enfrentam correntes, falta de alimento e predadores. A NOAA estima que apenas cerca de 0,5% sobrevivam até a idade adulta.
Eles também não permanecem sob os cuidados do casal. Assim que entram na água, precisam nadar e procurar sozinhos pequenos organismos do zooplâncton para se alimentar.
E qual é o papel da fêmea?
A gestação masculina não torna a participação da fêmea pequena. Produzir ovos grandes e ricos em reservas exige muita energia. É ela quem fornece o material que sustenta o começo do desenvolvimento e transfere toda a ninhada para a bolsa.
Enquanto o macho atravessa a gestação, a fêmea pode iniciar a produção de uma nova leva de ovos. Assim, os dois realizam investimentos diferentes e indispensáveis no ciclo reprodutivo.
Também não é seguro afirmar que todos os cavalos-marinhos formam casais para a vida inteira. Algumas espécies mantêm vínculos durante uma estação reprodutiva, mas os sistemas de acasalamento variam conforme a espécie, a população e o ambiente.

Ele é o único pai que engravida?
O cavalo-marinho é o exemplo mais famoso, mas pertence à família Syngnathidae, que também inclui peixes-cachimbo e dragões-marinhos. Nesse grupo, os machos apresentam diferentes formas de incubação.
Em algumas linhagens, os ovos ficam presos externamente ao corpo. Nos cavalos-marinhos, a evolução chegou a uma bolsa fechada e altamente especializada. Por isso, a expressão “único pai que engravida” funciona como gancho, mas precisa dessa explicação: há toda uma família de peixes com gestação masculina em diferentes graus.
O Brasil tem três espécies de cavalos-marinhos
Segundo o Projeto Hippocampus, três espécies ocorrem no país: o cavalo-marinho-de-focinho-longo (Hippocampus reidi), o cavalo-marinho-raiado (Hippocampus erectus) e o cavalo-marinho-patagônico (Hippocampus patagonicus).
Elas utilizam ambientes rasos, como manguezais, estuários e recifes. Esses locais sofrem com poluição, ocupação costeira, destruição de habitat, pesca incidental e captura para comércio.
Durante passeios e mergulhos, cavalos-marinhos não devem ser capturados, colocados em recipientes ou manipulados para fotografias. Observar com distância permite conhecer esse pai extraordinário sem transformar a curiosidade em ameaça.

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Um pai que transformou o corpo em abrigo
O cavalo-marinho macho não substitui a fêmea. Ele revela que a natureza encontrou mais de uma maneira de dividir o cuidado com o começo da vida.
Ao receber os ovos, manter os embriões e enfrentar as contrações do parto, esse pequeno peixe transforma o próprio corpo em berçário — até que os filhotes estejam prontos para seguir sozinhos pelo oceano.
Fontes: explicação da NOAA sobre gestação e nascimento em cavalos-marinhos, informações do Projeto Hippocampus sobre reprodução e espécies encontradas no Brasil, estudo publicado na Nature Ecology & Evolution sobre os mecanismos celulares da gestação masculina e pesquisa da Nature Communications sobre adaptações imunogenéticas associadas à gravidez dos machos.
Foto de capa: Camillasammartino / Wikimedia Commons — CC BY 4.0.

