Muito além do medo criado pelo cinema, os tubarões carregam mais de 400 milhões de anos de história evolutiva, possuem sentidos extraordinários e desempenham funções importantes para o equilíbrio dos oceanos.
Durante décadas, o cinema ajudou a transformar uma barbatana surgindo na superfície do mar em sinônimo de perigo. Dentes à mostra, perseguição, ameaça. Mas, quando deixamos a ficção de lado e mergulhamos na biologia, encontramos animais muito mais antigos, diversos e importantes do que esse estereótipo permite enxergar.
As linhagens ancestrais dos tubarões remontam a mais de 400 milhões de anos, muito antes do surgimento dos dinossauros. Conhecê-los é uma maneira de substituir o medo automático por respeito, e compreender por que proteger tubarões também significa preservar as relações que ajudam a sustentar os oceanos.

A barbatana que aprendemos a temer
Basta uma barbatana romper a superfície do mar para que uma imagem quase automática venha à cabeça: dentes, perseguição, perigo.
Poucos grupos de animais foram tão profundamente transformados pela cultura popular quanto os tubarões. O cinema consolidou a figura do grande predador que ronda seres humanos, enquanto a palavra “tubarão” passou a funcionar como se descrevesse um único tipo de animal.
Biologicamente, porém, essa imagem é pobre demais.
Hoje são conhecidas mais de 500 espécies viventes de tubarões, reunidas em diferentes linhagens e ocupando ambientes que vão de recifes tropicais às profundezas oceânicas. Há espécies que cabem praticamente na palma da mão e outras que ultrapassam 12 metros. Há caçadores ativos, predadores de fundo e gigantes que filtram plâncton.
Não existem 500 versões do mesmo animal. Existem centenas de soluções evolutivas diferentes para viver no mar.
Eles surgiram muito antes dos dinossauros, atravessaram grandes transformações do planeta e hoje formam um grupo com mais de 500 espécies viventes. Entre elas há gigantes filtradores, caçadores de águas profundas, espécies capazes de detectar campos elétricos e outras que podem viver por séculos. Conhecer os tubarões é descobrir um dos capítulos mais extraordinários da evolução animal.
Muito antes dos dinossauros
Dizer que os tubarões são mais antigos que os dinossauros é verdadeiro. Mas a frase esconde justamente a parte mais fascinante. Os primeiros dinossauros surgiram há cerca de 230 milhões de anos. A história dos tubarões e de seus parentes remonta a mais de 400 milhões de anos.
Como sabemos disso se o esqueleto dos tubarões é formado principalmente por cartilagem e raramente fossiliza? A resposta está no que consegue sobreviver ao tempo. Dentes, dentículos dérmicos, vértebras e, em casos excepcionais, impressões de tecidos permitem reconstruir fragmentos dessa história. O Smithsonian registra escamas atribuídas a tubarões com aproximadamente 420 milhões de anos e dentes de cerca de 400 milhões de anos. A partir desses vestígios, mais de 2 mil espécies fósseis de tubarões já foram descritas.
Mas há um detalhe importante: classificar animais tão antigos não é simples. Alguns fósseis pertencem a formas próximas da origem dos peixes cartilaginosos, e novas descobertas podem alterar sua posição na árvore evolutiva. O Natural History Museum, por exemplo, destaca que Cladoselache, surgido por volta de 380 milhões de anos atrás, tem um corpo que reconheceríamos como semelhante ao de um tubarão, embora sua posição exata ainda seja debatida.


Uma história de sobrevivência — mas também de transformação
Ter atravessado centenas de milhões de anos não significa que os tubarões permaneceram iguais. Ao longo desse tempo, oceanos surgiram e desapareceram, continentes mudaram de posição, temperaturas oscilaram e sucessivas crises de extinção reorganizaram a vida no planeta. Muitas linhagens de peixes cartilaginosos desapareceram completamente. Outras deram origem a formas cada vez mais especializadas.
É por isso que chamar os tubarões simplesmente de “fósseis vivos” pode criar uma impressão errada. Sua ancestralidade é extraordinariamente antiga, mas os tubarões atuais são resultado de milhões de anos de evolução, diversificação e adaptação.
Os mares do passado abrigaram formas muito diferentes das que conhecemos hoje. Algumas deixaram apenas dentes e escamas; outras, em condições excepcionais, preservaram partes suficientes do corpo para permitir que paleontólogos reconstruíssem sua anatomia.
Mais de 2 mil espécies fósseis de tubarões já foram descritas pela ciência, mas esse número não representa tudo o que existiu. O registro fóssil é incompleto e, como a cartilagem raramente se preserva, incontáveis espécies provavelmente desapareceram sem deixar evidências que tenhamos encontrado.
Essa limitação torna cada fóssil ainda mais valioso: cada dente, vértebra ou impressão corporal é uma pequena janela aberta para oceanos que deixaram de existir.
Dos oceanos antigos aos guardiões de hoje
A longa viagem evolutiva desemboca em uma diversidade que dificilmente cabe na imagem que costumamos associar à palavra “tubarão”. Hoje são conhecidas mais de 500 espécies viventes. Mas elas não são centenas de versões do grande tubarão-branco.
São animais que podem ter poucos centímetros ou ultrapassar 12 metros; viver junto ao fundo ou atravessar oceanos; alimentar-se de pequenos invertebrados, peixes, mamíferos marinhos ou simplesmente filtrar organismos microscópicos da água. E é justamente essa diversidade que permite aos tubarões ocupar diferentes posições nas redes ecológicas dos mares.
A ideia de “guardiões”, portanto, começa aqui, não porque todos façam a mesma coisa, mas porque diferentes espécies participam, de maneiras distintas, da complexa engrenagem que mantém os ecossistemas marinhos funcionando.
Para compreender essa diversidade, é preciso abandonar a ideia de que “tubarão” descreve um único modelo corporal. Os tubarões atuais estão distribuídos em grandes grupos evolutivos que desenvolveram estratégias muito diferentes para encontrar alimento, locomover-se, reproduzir-se e perceber o ambiente.

Tubarões pertencem à classe Chondrichthyes, os peixes cartilaginosos. Nesse grupo também estão as raias e as quimeras. Tubarões e raias pertencem aos elasmobrânquios. A cartilagem é apenas uma das características que os diferenciam da maioria dos peixes ósseos.
Em geral, tubarões possuem várias fendas branquiais independentes, dentição continuamente substituída e pele revestida por dentículos dérmicos, estruturas microscópicas semelhantes a dentes.
Eles também não possuem a tradicional bexiga natatória usada por muitos peixes ósseos para controlar a flutuabilidade. Em seu lugar, contam com diferentes adaptações, entre elas um grande fígado rico em óleo e um corpo relativamente leve.
E os dentes são uma história à parte. Novos dentes são produzidos continuamente e avançam em fileiras à medida que os anteriores são perdidos. Ao longo da vida, um tubarão pode substituir milhares de dentes. O formato acompanha a dieta: dentes finos ajudam a prender peixes; formas serrilhadas cortam tecidos; dentes mais achatados podem esmagar organismos duros.
Não existe “o tubarão”. Uma palavra, nove grandes grupos
As espécies viventes são organizadas em nove ordens na classificação apresentada pelo Smithsonian. Cada uma reúne formas bastante diferentes. Entre elas estão os Carcharhiniformes, maior ordem, com mais de 270 espécies, incluindo tubarões-tigre, cabeça-chata, martelos e inúmeros tubarões-gato.
Os Lamniformes reúnem nomes famosos como tubarão-branco, makos, tubarão-peregrino, tubarão-duende e tubarão-raposa.
Os Orectolobiformes incluem tubarões-lixa, wobbegongs e o gigantesco tubarão-baleia.
Os Squaliformes apresentam enorme diversidade, incluindo pequenos tubarões de águas profundas e o longevo tubarão-da-Groenlândia.
Já os Squatiniformes, conhecidos como cações-anjo, têm o corpo achatado e podem facilmente ser confundidos com raias por quem não conhece sua anatomia.
Essa organização ajuda a entender por que dizer apenas “existem muitas espécies” é insuficiente. A diversidade não é apenas numérica. É anatômica, ecológica e comportamental.

Do tamanho de uma mão ao maior peixe do mundo
O menor extremo dessa diversidade é representado pelo tubarão-lanterna-anão (Etmopterus perryi), que mede cerca de 20 centímetros. No outro extremo está o tubarão-baleia (Rhincodon typus), o maior peixe vivo, capaz de ultrapassar 12 metros. Apesar do tamanho gigantesco, alimenta-se por filtração, capturando plâncton e pequenos organismos.
Mas outras espécies são igualmente surpreendentes.
O tubarão-raposa possui uma longa porção superior da cauda que pode ser usada para atingir e atordoar cardumes.
O tubarão-duende, habitante de águas profundas, consegue projetar rapidamente a mandíbula para frente.
Nos tubarões-martelo, a cabeça expandida modifica a distribuição dos sistemas sensoriais e amplia a capacidade de explorar o ambiente.
E existem tubarões que vivem em profundidades onde quase não há luz, outros associados ao fundo marinho e espécies que realizam migrações por grandes extensões oceânicas.
Um mundo sensorial diferente do nosso
Apesar da enorme diversidade, os tubarões compartilham características herdadas de uma longa história evolutiva. Algumas delas ajudam a explicar por que esses animais conseguiram ocupar ambientes tão diferentes — e por que seu corpo é tão diferente do nosso e do de grande parte dos peixes.
A fama do olfato dos tubarões é tão grande que muitas vezes encobre os outros sistemas sensoriais. A NOAA reconhece oito modalidades sensoriais nesses animais: audição, olfato, visão, tato, paladar, percepção de vibrações e pressão, eletrorrecepção e magnetorrecepção.
A linha lateral percorre o corpo e detecta deslocamentos e alterações de pressão na água.
As ampolas de Lorenzini, concentradas especialmente na região da cabeça, detectam sinais elétricos produzidos por outros organismos. Uma presa escondida sob a areia pode não estar visível, mas continua produzindo atividade elétrica.
Há ainda evidências de que tubarões utilizam informações do campo magnético terrestre durante orientação e deslocamentos.


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Nascer tubarão pode significar coisas muito diferentes
Talvez uma das partes mais surpreendentes da biologia dos tubarões seja a reprodução.
Todos realizam fecundação interna. A partir daí, porém, as estratégias variam.
Existem espécies ovíparas, que depositam cápsulas de ovos no ambiente.
Há espécies vivíparas placentárias, nas quais existe conexão entre tecidos maternos e embrionários.
Outras são vivíparas aplacentárias: os embriões se desenvolvem dentro da mãe, mas sem placenta verdadeira.
Em algumas espécies, os embriões consomem ovos não fecundados produzidos pela mãe, processo conhecido como oofagia.
No tubarão-mangona (Carcharias taurus), a competição chega a outro nível: embriões maiores podem consumir outros embriões dentro do útero, comportamento conhecido como adelfofagia.
Não existe, portanto, uma única maneira de nascer tubarão.
Como nascem os tubarões?
- oviparidade;
- viviparidade placentária;
- viviparidade aplacentária;
- oofagia;
- adelfofagia.

Tubarões não são máquinas
Outro estereótipo antigo é imaginar tubarões como organismos guiados apenas por reflexos: detectar, perseguir e morder.
A pesquisa comportamental mostra um cenário mais complexo.
Estudos com diferentes espécies documentam capacidade de aprendizagem, memória, orientação espacial e respostas sociais. Isso não significa atribuir sentimentos humanos aos tubarões, mas reconhecer que eles são capazes de ajustar comportamentos a partir da experiência.
A evolução não produziu apenas dentes e nadadeiras. Produziu também diferentes maneiras de perceber e responder ao ambiente.

Nem todo tubarão está no topo da cadeia alimentar
Também é incorreto afirmar que todos os tubarões são grandes predadores de topo. Algumas espécies ocupam posições elevadas nas redes alimentares; outras funcionam como predadores intermediários, alimentam-se de pequenos invertebrados ou filtram partículas da água.
O papel ecológico depende de cada espécie. Os predadores, por exemplo, podem regular populações, modificar o comportamento de presas e afetar onde outros animais se alimentam. Mas também existem tubarões que participam da remoção de organismos debilitados, do consumo de carcaças e da circulação de nutrientes.
Quando o animal temido passa a ser o ameaçado
Existe um paradoxo difícil de ignorar. Durante décadas, nossa cultura construiu o tubarão como ameaça. Mas a pressão global mais intensa nessa relação ocorre na direção contrária.
Na avaliação global divulgada pela IUCN em 2021, 37% das espécies avaliadas de tubarões e raias estavam ameaçadas de extinção, principalmente em consequência da sobrepesca, além de impactos ligados à degradação de habitats e às mudanças climáticas.
A vulnerabilidade de muitas espécies está ligada à própria biologia. Diversos tubarões crescem lentamente, levam anos para atingir maturidade sexual e produzem relativamente poucos descendentes. Por isso, quando populações com esse perfil sofrem mortalidade intensa, sua recuperação pode levar décadas.

O novo ciclo de conservação no Brasil
O Brasil entrou em um novo momento de planejamento para essas espécies.
O 2º ciclo do PAN Tubarões e Raias, aprovado em 2025 para o período 2025–2030, trabalha com 65 espécies-foco e tem como objetivo integrar sociedade e poder público para reduzir ameaças e promover a recuperação das espécies e de seus ecossistemas.
A portaria que formalizou o plano contempla 63 táxons nacionalmente ameaçados e outras duas espécies incluídas nas estratégias de conservação.
Em 2026, o Brasil também atualizou a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção para peixes e invertebrados aquáticos.
Conservar tubarões envolve pesquisa científica, fiscalização, manejo da pesca, redução de captura incidental, proteção de habitats e participação das comunidades que dependem do mar.
E o risco para seres humanos?
Reconhecer a importância dos tubarões não exige romantizá-los. Grandes espécies são animais selvagens e exigem cautela. Mas “animal capaz de ferir” não significa “animal que caça seres humanos como alimento”.
A grande maioria das espécies nunca esteve associada a incidentes graves com pessoas. Contextualizar risco é tão importante quanto não ignorá-lo.

Do medo ao encantamento
Depois de atravessar centenas de milhões de anos de evolução, fica difícil continuar enxergando “o tubarão” como um único personagem.
Existe o gigante que filtra plâncton.
O pequeno tubarão de águas profundas.
O caçador que usa a cauda.
O animal que detecta sinais elétricos que nós não percebemos.
O tubarão achatado que parece uma raia.
O migrador que lê pistas do planeta.
Existem espécies vivas e milhares de espécies fósseis descritas, além de inúmeras perguntas que a ciência ainda tenta responder. Eles sobreviveram a oceanos muito diferentes dos atuais, grandes extinções e reorganizações profundas da vida no planeta. Hoje, enfrentam uma transformação produzida por uma espécie muito mais recente: a nossa.
Conhecer os tubarões não elimina o respeito que animais selvagens exigem. Elimina a caricatura. E talvez seja justamente aí que o medo começa a dar lugar ao fascínio.
Fontes: Florida Museum of Natural History — Sharks FAQ, com informações sobre diversidade, anatomia e história evolutiva dos tubarões; NOAA National Marine Sanctuaries — How Sharks Keep the Ocean Healthy, sobre as funções ecológicas dos tubarões nos ecossistemas marinhos; IUCN — atualização da Lista Vermelha publicada em 2021 sobre o risco global de extinção de tubarões e raias; Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) — PAN Tubarões e Raias, sobre o 2º ciclo do plano brasileiro de conservação, 2025–2030; Governo Federal — comunicado de 2026 sobre identificação da espécie e origem na compra pública federal de carne de tubarão e raia.
Foto de capa: Imagem criada por IA para o site Que Papo É Esse, Bicho?
Depois de conhecer uma história marcada por adaptação, percepção e sobrevivência, nosso próximo mergulho deixa a biologia encontrar a vida cotidiana.

