Nós não precisamos conhecer o tamanho da nossa força para começarmos a usá-la. Às vezes, a coragem começa com um pequeno disfarce. E acredite enfrentar o medo, em muitos casos o nosso maior adversário, é dar um passo decisivo para realizar a mudança que desejamos em nossas vidas.
O peixinho ao usar a barbatana de tubarão não ficou maior, não ganhou dentes afiados, não se tornou o maior predador do oceano. Mas, ele decidiu que iria se ver de uma nova forma e ao conseguir isso também faria o mundo vê-lo de outro modo. Em algum momento da vida, quase todos nós já precisamos nos vestir de uma coragem que ainda não tínhamos completamente. Sentimos isso antes de realizarmos uma conversa difícil, de tomarmos uma decisão importante, de optarmos por um recomeço para o qual ainda não estamos preparados. Nesses instantes o nosso coração acelera, a insegurança bate, mas uma voz que pulsa em nossa mente ecoa: “vai, com medo mesmo, só vai, você precisa ir”. E aí disfarçar o medo não significa fingir que ele não existe, mas significa impedir que ele assuma o comando.
A força está com você
Talvez os tubarões não saibam que a sua aparência e força imponente provoquem admiração ou medo em outros seres. Sabemos, no entanto, que como todos os animais ele apenas segue o seu instinto e assim cumpre um importante papel nos oceanos. Seu corpo é perfeitamente adaptado para ser o que é. Ele percebe as vibrações e mudanças na pressão da água, detecta campos elétricos produzidos pelos outros animais, utiliza sentidos especializados para orientar-se e encontrar os alimentos, reconhece e percebe o ambiente ao seu redor.
Sua coragem não está no tamanho e força mas na sutileza e perspicácia de ler o oceano e responder a ele. Nem todos os tubarões são gigantes ou predadores de topo, a natureza não criou um único modelo, mas em sua variedade de criações permitiu que cada um encontrasse a sua maneira de viver e sobreviver.

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Coragem não é ausência do medo
Durante muito tempo nós aprendemos a imaginar que para sermos alguém corajoso é nunca poderemos temer e nunca poderemos pensar em recuar. Mas, isso não verdade. A coragem é um sentimento que está presente em todos nós e se manifesta praticamente em todos os nossos dias: quando decidimos sair da cama; quando enfrentamos a escola, os colegas, a rotina, o crescimento e todas as mudanças que ele traz; encaramos o trabalho, os relacionamentos e tudo mais que vivenciamos em todos os dias da vida.
O medo e a coragem estão ali, lado a lado, diariamente, convivendo conosco, e somos nós que escolhemos quem vai ser o responsável por conduzir o caminho que vamos seguir.
Viver exige adaptação, movimento e constância
Há momentos em que nos sentimos um peixinho vulnerável diante da vida, um oceano que parece assustador e grande demais! Nesses dias não podemos esperar que a insegurança desapareça, precisamos entender o que nos aflige e decidirmos seguir, dando um passo atrás do outro, como tão significativamente repetia Dori – a peixinha desmemoriada que tem o melhor lema de vida – “continue a nadar”. Precisamos agir e seguir independentemente do medo.
Fazendo isso perceberemos, com o passar do tempo, a coragem não foi apenas um disfarce que escolhemos vestir, ela passa a fazer parte de nós, nós só precisávamos ter feito essa opção, vesti-la como armadura para enfrentar as dificuldades . Nós não precisamos nos sentirmos invencíveis, não precisamos conhecermos toda a nossa potência, nem provarmos nada para ninguém, precisamos apenas não permitir que o medo decida por nós.
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas descreve de forma poética e verdadeira:
“o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da gente é coragem”
Entre os dias de sossego e desassossego, se sentir o medo te dominar, pegue a sua barbatana, vista a sua fantasia e seja corajoso, mesmo que precise disfarçar o medo.

Foto de capa: Imagem criada por IA para o site Que Papo É Esse, Bicho?
Este texto faz parte do Instinto Semanal 01 — Tubarões. Conheça a edição completa.

