Jumento nordestino em pé na paisagem seca da Caatinga, iluminado pelo sol do início da manhã.

Do símbolo do sertão à ameaça de desaparecimento: o que está acontecendo com os jumentos do Nordeste

Em apenas oito meses de 2026, cerca de 3,5 mil jumentos saíram do Piauí com movimentação registrada para abate na Bahia — quase três vezes o total de 2025. A rota expõe uma cadeia movida pelo comércio internacional. A pele desses animais está associada à produção de ejiao, uma gelatina de colágeno utilizada na medicina tradicional da China. Esta é uma situação cercada por alertas científicos, problemas de bem-estar animal e uma contradição jurídica ainda sem resposta pública clara.


Durante séculos, o jumento carregou água, alimentos, pessoas e mercadorias por caminhos onde nenhum veículo chegava. Ajudou a sustentar famílias, pequenas lavouras e comunidades inteiras no semiárido. Foi força de trabalho, meio de transporte e símbolo de resistência.

Quando motocicletas, automóveis e máquinas ocuparam o campo, porém, o companheiro indispensável passou a ser tratado como um animal sem valor. Muitos foram abandonados. Outros começaram a ser comprados por quantias muito baixas e reunidos em grandes lotes. Hoje, a pele desses animais abastece uma cadeia internacional ligada à produção de ejiao, gelatina de colágeno utilizada na medicina tradicional da China.

O Piauí está dentro dessa rota. Entre janeiro e agosto de 2026, cerca de 3,5 mil jumentos tiveram movimentação registrada para abate em frigoríficos da Bahia, segundo dados da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Piauí (ADAPI) divulgados por veículos de imprensa. Em todo o ano de 2025, foram 1.241 animais. O volume de 2026 é aproximadamente 2,8 vezes o do ano anterior — um aumento de cerca de 182% — antes mesmo de o ano terminar.

Mais de 70 Guias de Trânsito Animal (GTAs) foram emitidas nos primeiros oito meses de 2026, diante de 26 em 2025. O documento oficial registra a movimentação, com dados como origem, destino, espécie e finalidade. A confirmação de quantos animais chegaram ao frigorífico e foram efetivamente abatidos depende dos registros da inspeção no destino.

O que os números já permitem afirmar é grave: milhares de jumentos estão sendo retirados do território piauiense e enviados a uma cadeia que, segundo a própria ADAPI, não se apoia em fazendas dedicadas à criação desses animais para abate.



Quatro jumentos nordestinos reunidos em uma paisagem de Caatinga, com vegetação seca e serras ao fundo.
A população de jumentos do Brasil sofreu forte redução nas últimas décadas. Imagem criada por IA para o site Que Papo é Esse, Bicho?

Marcos Parente, no Sul do Piauí, aparece como o principal ponto de concentração dos animais. De acordo com as informações atribuídas à ADAPI, os jumentos são comprados de diferentes proprietários e reunidos temporariamente em uma propriedade rural. Não existem no estado estabelecimentos dedicados especificamente à reprodução e criação comercial de jumentos para essa finalidade.

Esse detalhe ajuda a compreender o centro da controvérsia. Em uma cadeia pecuária organizada, animais são criados, alimentados, acompanhados sanitariamente e reproduzidos para que haja reposição do plantel. No caso dos jumentos enviados pelo Piauí, não há notícia de um sistema equivalente. O fluxo depende da reunião de animais já existentes e dispersos em propriedades, reportagens e processos judiciais também apontam historicamente a captura de animais abandonados.

A ausência de criatórios não prova, sozinha, a origem irregular de cada animal. Porém, é um indício compatível com o que pesquisadores vêm descrevendo como modelo extrativista: retira-se continuamente de uma população existente, sem uma estrutura reprodutiva conhecida capaz de repor o que sai.

O percurso pode ultrapassar 1,3 mil quilômetros até as cidades baianas de Amargosa e Itapetinga. A ADAPI fiscaliza os lotes até a saída do Piauí; na chegada à Bahia, o controle sanitário passa aos órgãos baianos e ao Serviço de Inspeção Federal. Viagens longas, aglomeração de animais de origens diversas, rastreabilidade anterior limitada e eventuais falhas de alimentação, hidratação e repouso ampliam as preocupações sanitárias, bem como com a saúde e o bem-estar desses animais.


Infográfico apresenta a rota dos jumentos: compra de animais de diferentes origens, concentração no Piauí, GTA e transporte, frigorífico na Bahia, processamento da pele, exportação e produção de ejiao.
A rota reúne animais de diferentes origens no Piauí antes do transporte para frigoríficos baianos. A GTA registra a finalidade declarada da viagem, mas não comprova, sozinha, o abate efetivo. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?.

O principal motor econômico desse comércio é o ejiao, produto obtido do colágeno da pele do jumento. Tradicional na China e vendido em diferentes apresentações, ele ganhou um mercado de grande escala. Com a redução do rebanho chinês, a procura por matéria-prima avançou sobre países da África, da Ásia e da América Latina.

A organização internacional The Donkey Sanctuary estimou que a indústria mundial já necessitava de pelo menos 5,9 milhões de peles por ano em 2021 e poderia chegar a 6,8 milhões em 2027, se mantido o ritmo de expansão. O dado deve ser lido como estimativa da organização, não como contagem oficial de todos os animais abatidos no mundo, mas ajuda a dimensionar a pressão internacional.

No início da cadeia piauiense, os animais podem ser adquiridos por valores entre R$ 50 e R$ 150, segundo pesquisadores ouvidos nas reportagens recentes. Depois do abate e do processamento, a pele alcança valores muito superiores. Essa diferença revela quem ocupa a parte mais vulnerável do negócio: o animal desvalorizado no campo e os pequenos proprietários que recebem uma fração do valor gerado nas etapas seguintes.

Também ajuda a explicar por que não é simples substituir a retirada dos animais por uma criação intensiva. A gestação da jumenta dura perto de um ano, normalmente resulta em um filhote e é seguida por um período longo de crescimento. Criar, alimentar, manejar e acompanhar sanitariamente cada animal custa tempo e dinheiro — exatamente o que uma cadeia baseada na compra barata de animais já existentes evita pagar.


Os jumentos chegaram ao Brasil no período colonial e encontraram no semiárido condições que moldaram uma população resistente ao calor, à escassez de água e à vegetação da Caatinga. A literatura científica descreve três grupos desenvolvidos no país: Pêga, Brasileiro e Nordestino. O último passou por seleção ligada sobretudo à adaptação ao ambiente e aos usos cotidianos da região.

Por gerações, esses animais foram essenciais ao transporte e à agricultura familiar. A mecanização reduziu essa função econômica a partir da segunda metade do século 20. O abandono que veio depois não foi causado pelos próprios jumentos nem por uma suposta “reprodução descontrolada” isolada do contexto humano: foi consequência de uma transição tecnológica sem política pública capaz de dar novo destino, manejo e valor aos animais que deixaram de ser utilizados.

A sequência ajuda a entender o presente:

mecanização do campo → perda da função econômica → abandono e desvalorização → população vulnerável → demanda internacional por peles → retirada em grande escala.

Reconhecer essa história evita uma explicação simplista que responsabilize apenas a China. A demanda externa impulsiona o abate, mas encontrou no Brasil uma população já abandonada pelo poder público, pouco valorizada economicamente e sem um programa nacional consistente de identificação, manejo e conservação.

Agentes recolhem um jumento abandonado às margens de uma rodovia no Nordeste, próximo a um caminhão e a uma viatura da PRF.
Jumentos abandonados passaram a representar risco para os próprios animais e para quem circula pelas rodovias do Nordeste. Foto de arquivo: Divulgação/PRF.





Na Declaração de Maceió, apresentada durante o III Workshop Internacional Jumentos do Brasil, em 2025, pesquisadores alertaram que a população brasileira de asininos teria caído de aproximadamente 1,3 milhão no fim dos anos 1990 para cerca de 78 mil em 2025 — redução estimada em 94%.

Esse número combina dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura e Pecuária e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Entre 2018 e 2023, segundo números do Mapa citados pela Pesquisa FAPESP, 248 mil jumentos foram abatidos, média de 113 por dia.

Há, entretanto, uma limitação que precisa acompanhar qualquer estimativa: o Brasil não possui um censo recente e específico capaz de contar todos os jumentos, especialmente os abandonados ou mantidos fora de propriedades formalizadas. Os 78 mil são uma estimativa construída por pesquisadores a partir de bases diferentes; não uma fotografia exata e completa da população em 2025.

O alerta não deve ser confundido com a extinção mundial do jumento doméstico. O risco apontado é o colapso da população brasileira e, especialmente, o desaparecimento do jumento Nordestino, grupo adaptado ao semiárido e portador de um patrimônio genético, histórico e cultural particular. A previsão de desaparecimento até 2030, repetida em diferentes debates, é um cenário de risco caso o ritmo de retirada continue.


Infográfico mostra queda estimada de 94%: de cerca de 1,3 milhão de jumentos no fim dos anos 1990 para 78 mil em 2025, além de 248 mil abates entre 2018 e 2023 e 3,5 mil animais movimentados pelo Piauí em 2026.
Pesquisadores estimam redução de 94% da população brasileira de asininos. O número de 78 mil combina diferentes bases e não corresponde a um censo nacional específico. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?.

Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica Animals avaliou 104 jumentos abandonados destinados ao abate no Brasil. Os pesquisadores realizaram exames físicos nos 104 animais e análises hematológicas em 88 deles. A maior parte apresentou alterações compatíveis com condição corporal inadequada e inflamação sistêmica.

Os resultados não permitem afirmar que todos os jumentos enviados para abate no país estejam nas mesmas condições. Eles oferecem, contudo, evidência concreta de sofrimento e falhas de manejo dentro do sistema estudado. Para os autores, os achados se afastam do que seria esperado de uma cadeia produtiva estruturada e reforçam o caráter extrativista da atividade.

O problema não começa na porta do frigorífico. Ele pode surgir na captura ou compra, na mistura de animais sem histórico conhecido, na espera para completar os lotes, no confinamento e no transporte. Por isso, uma inspeção sanitária realizada no destino, embora necessária, não apaga as condições de sofrimento animal enfrentadas durante toda a rota.


O histórico brasileiro já mostrou o que pode ocorrer quando centenas de jumentos são reunidos sem estrutura adequada. Em 2019, uma propriedade entre Canudos e Euclides da Cunha, na Bahia, concentrou grande número de animais debilitados. Equipes encontraram mortes, fome, sede e doença; parte dos jumentos não sobreviveu mesmo após o resgate.


Dezenas de jumentos reunidos em um curral de frigorífico em Miguel Calmon, na Bahia, em 2016.
Jumentos reunidos para abate em um frigorífico de Miguel Calmon (BA), em 2016, quando a atividade foi suspensa a pedido do Ministério Público. Foto: Agora na Bahia/Reprodução BBC.

O caso não ficou restrito à denúncia de organizações de proteção animal. Laudos, fotografias, vídeos e relatórios sanitários passaram a integrar a ação civil pública que discutiu o abate na Bahia. Ao sentenciar o processo em abril de 2026, a Justiça Federal registrou evidências de privação de água e alimentação, mortalidade elevada, animais doentes, transporte inadequado, descarte irregular de carcaças e risco de disseminação de zoonoses.


Esta é a contradição que as informações públicas disponíveis ainda não esclarecem satisfatoriamente.

Em 13 de abril de 2026, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia julgou parcialmente procedente a Ação Civil Pública nº 1010977-33.2018.4.01.3300. A sentença determinou que União, Estado da Bahia e Adab, dentro de suas competências, adotassem providências para proibir o abate de jumentos, muares e bardotos no estado, impedir captura, compra e confinamento para essa finalidade e encaminhar os animais a santuários. A decisão também confirmou uma tutela provisória anteriormente concedida.

A própria sentença reconheceu que o abate de equídeos é admitido em abstrato pela legislação brasileira quando cumpre as exigências sanitárias e de bem-estar. A proibição decorreu da forma como a atividade vinha sendo realizada e das irregularidades comprovadas no processo. A decisão limitou seus efeitos à Bahia e não fechou os frigoríficos para outras atividades legalmente autorizadas.

Meses depois, porém, dados atribuídos à ADAPI mostram a emissão de mais de 70 GTAs para o deslocamento de cerca de 3,5 mil jumentos do Piauí a frigoríficos baianos entre janeiro e agosto. Reportagens publicadas em setembro descrevem as unidades de destino como autorizadas e em operação.

Dizer apenas que “o abate foi proibido” esconde metade da história; afirmar que “está autorizado” também. O que se pode dizer com segurança é que existe uma sentença federal proibitiva e, ao mesmo tempo, há registros recentes de movimentação de animais para essa finalidade. A transparência sobre o elo entre uma coisa e outra é de interesse público.



Defensores da continuidade do abate argumentam que a atividade poderia gerar renda e empregos se fosse transformada em cadeia regular, com criatórios, produtores cadastrados, reprodução planejada, rastreabilidade, controle sanitário e regras de bem-estar. Nessa visão, o problema estaria na precariedade do modelo atual, não necessariamente no abate em si.

É um contraponto que precisa ser ouvido. Mas ele conduz à pergunta central: essa cadeia estruturada existe hoje?

No Piauí, a informação de que não há propriedades específicas de criação para abate sugere que não. O estudo publicado na Animals também não encontrou, no sistema analisado, características de uma produção organizada. E o longo ciclo reprodutivo do jumento torna economicamente difícil concorrer com a retirada barata de animais já existentes.

Por outro lado, abandonar milhares de jumentos nas estradas também não é política de proteção. Proibir o abate sem oferecer identificação, recolhimento responsável, castração quando indicada, santuários, adoção, uso sustentável e apoio aos municípios transfere o problema sem resolvê-lo. A discussão precisa ir além da escolha estreita entre matar ou abandonar.


Duas propostas nacionais tratam do tema.

Na Câmara dos Deputados, o PL 2.387/2022 pretende proibir o abate de equídeos e equinos para comércio destinado ao consumo ou à exportação. O substitutivo aprovado na Comissão de Meio Ambiente ampliou expressamente o alcance para carne, pele e outras partes do corpo. A proposta já passou pelas comissões de Agricultura e de Meio Ambiente e, em 7 de setembro de 2026, estava pronta para pauta na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

No Senado, o PL 2.613/2026 proíbe especificamente o abate de jumentos em todo o território nacional, exceto por necessidade sanitária. A matéria foi distribuída ao senador Luis Carlos Heinze na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária e, depois, deverá seguir para a Comissão de Meio Ambiente.

Nenhum dos dois projetos havia se tornado lei até a data de publicação desta reportagem. Por isso, a situação nacional não pode ser resumida como uma proibição geral definitiva. O que existe é uma decisão judicial com alcance na Bahia e propostas legislativas ainda em tramitação.


Uma possível saída começa em laboratório. Pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná trabalham com a produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão. A técnica utiliza microrganismos geneticamente modificados para produzir a proteína de forma controlada, sem retirar a pele do animal.

A pesquisa ainda não significa que exista uma substituição comercial pronta, barata e disponível em grande escala. Ela mostra, no entanto, que o produto de interesse econômico pode ser dissociado do abate. Se a indústria procura uma molécula, a inovação pode oferecer outra rota para obtê-la.

Também existem formas de devolver valor aos jumentos vivos: agricultura familiar em condições adequadas, produção responsável de leite, terapias e atividades assistidas, turismo rural, educação ambiental, conservação e manejo ecológico. Nenhuma alternativa isolada absorverá todos os animais abandonados, mas um conjunto de políticas pode romper a ideia de que um jumento só volta a ter valor quando sua pele entra no mercado internacional.




O desaparecimento desses animais não começou com um navio levando peles para a Ásia. Começou quando o Brasil modernizou o campo e não decidiu o que fazer com quem ajudara a sustentá-lo. A demanda pelo ejiao encontrou essa ferida aberta e transformou abandono em matéria-prima.

Agora, o salto dos embarques no Piauí mostra que a retirada continua. A falta de criatórios específicos reforça a dúvida sobre reposição. A ciência encontra sinais de sofrimento. A Justiça proíbe, mas os registros de trânsito persistem sem uma explicação pública completa. O Congresso discute, mas ainda não decidiu.

O jumento nordestino não é peça de museu nem resto de um passado rural. É um animal senciente, um recurso genético adaptado à Caatinga e parte da memória social do Nordeste. Protegê-lo exige mais do que comoção: exige dados transparentes, rastreabilidade desde a origem, fiscalização, alternativas econômicas, manejo populacional responsável e uma decisão coletiva sobre o limite entre comércio e desaparecimento.

Depois de carregar o sertão por séculos, o jumento não pode ser deixado sozinho para carregar também o peso da nossa omissão.