Pesquisadora com roupa de proteção aproxima-se de pinguins-gentoo durante monitoramento da influenza aviária na Antártica.

Das aves aos mamíferos: como o H5N1 atravessa espécies e amplia o alerta sanitário no mundo

O avanço do H5N1 em aves e mamíferos ampliou uma crise sanitária antes associada sobretudo às aves domésticas. Hoje, a panzootia alcança aves silvestres, rebanhos e mamíferos marinhos. Em 2026, o vírus chegou à Austrália e levou à vacinação de pinguins e à detecção de H5 em um leão-marinho-australiano, espécie ameaçada de extinção. Ainda em 2026, um novo foco foi encontrado no Uruguai, mostrando por que vigilância sanitária, investigação laboratorial e comunicação precisa importam.


Durante anos, a Austrália foi a grande exceção no mapa mundial do H5N1. Enquanto o vírus avançava pela Ásia, Europa, África, Américas e ilhas subantárticas, o continente australiano permanecia sem detecções dessa linhagem em sua fauna. Essa barreira caiu em junho de 2026.

Menos de três meses depois, o país já contabilizava 542 eventos positivos de influenza aviária H5 em animais silvestres, segundo o painel federal atualizado até 14 de setembro. A Austrália Meridional concentrava 295 eventos; Victoria, 165. O vírus apareceu principalmente em aves marinhas, mas o acompanhamento ganhou outra dimensão quando surgiram resultados positivos em pequenos-pinguins, lobos-marinhos, um leão-marinho-australiano, uma raposa-vermelha e golfinhos.

Os números impressionam, mas precisam ser lidos corretamente. A Austrália não está contando 542 animais: está contando 542 eventos, e cada evento pode envolver um ou vários indivíduos. Também não é correto chamar automaticamente todos esses resultados de H5N1. Em parte das ocorrências, o laboratório confirmou o subtipo H5, enquanto a caracterização completa do vírus ainda dependia de análises adicionais.

Essa diferença parece pequena. Não é. Ela separa acompanhamento científico de manchete apressada.


Infográfico mostra como o H5N1 em aves e mamíferos se expandiu entre espécies e continentes de 1996 a 2026.
Do primeiro registro em gansos de criação na China, em 1996, à chegada à Austrália continental em 2026: a cronologia mostra como o H5N1 ampliou seu alcance geográfico e passou a atingir diferentes grupos de animais. Os marcos não representam uma rota genética única nem transmissão direta entre todas as etapas. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?

Os vírus influenza A são classificados pelas combinações de duas proteínas de superfície: a hemaglutinina, representada pela letra H, e a neuraminidase, representada pela letra N. H5N1 é uma dessas combinações. Existem também outros vírus com H5, como H5N2, H5N5, H5N6 e H5N8.

Por isso, um resultado descrito oficialmente como H5 informa que o laboratório identificou aquela hemaglutinina, mas não necessariamente que a neuraminidase N1 já foi determinada. Quando a qualidade da amostra permite, sequenciamento e testes complementares ajudam a definir subtipo, linhagem, clado e relações com outros vírus.

Há outra expressão que costuma gerar confusão: influenza aviária de alta patogenicidade, ou IAAP. A classificação se refere ao comportamento do vírus em galinhas e a características moleculares específicas. Ela não significa que todo animal infectado adoecerá gravemente — e tampouco descreve automaticamente a gravidade em seres humanos.


A história da linhagem que mudaria a influenza aviária moderna começa em 1996, quando um H5N1 foi identificado em gansos de criação na província de Guangdong, na China. No ano seguinte, durante um surto em aves de Hong Kong, surgiram os primeiros casos humanos conhecidos dessa linhagem.

A partir de 2003, vírus aparentados se espalharam de forma mais ampla pela Ásia, Europa e África. Eles continuaram evoluindo, trocando segmentos genéticos com outros vírus de influenza e formando diferentes subtipos e clados.

O capítulo atual está ligado principalmente ao clado 2.3.4.4b. A partir de 2020 e 2021, ele se expandiu com intensidade excepcional por rotas de aves silvestres, alcançando a América do Norte e depois a América do Sul. A Organização Mundial de Saúde Animal classifica o processo como uma panzootia: uma epidemia animal disseminada por países e continentes.

O impacto deixou de caber na expressão “doença de granja”. O vírus causou mortalidades em colônias de aves marinhas, atingiu aves de rapina, chegou a mamíferos que predam ou consomem carcaças e encontrou novas oportunidades de circulação em ambientes muito diferentes.


Vaca em um estábulo ao lado de uma micrografia colorizada de partículas do vírus H5N1.
Composição reúne uma vaca em um estábulo e uma micrografia eletrônica colorizada de partículas do vírus H5N1, em amarelo. A imagem é ilustrativa e não indica que o animal fotografado esteja infectado. NIAID e CDC, via Wikimedia Commons — CC BY 2.0.


Em 2024, a confirmação de H5N1 em vacas leiteiras nos Estados Unidos abriu um capítulo inesperado. Segundo a atualização global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, 1.173 propriedades leiteiras de 20 estados norte-americanos haviam sido afetadas até 26 de agosto de 2026. O mesmo balanço registra infecções em cabras, alpacas e suínos.

Na costa sul-americana, o dano ecológico foi ainda mais visível. Um estudo publicado na Nature Communications descreveu milhares de mortes de mamíferos marinhos desde 2022 e reuniu evidências epidemiológicas e genômicas compatíveis com transmissão entre mamíferos durante o surto em elefantes-marinhos na Argentina.

Isso não quer dizer que toda detecção em mamífero resulte em uma cadeia sustentada: muitas continuam sendo saltos isolados a partir de aves. Significa, porém, que já não é seguro tratar mamíferos como simples acidentes sem importância epidemiológica.


Em novembro de 2025, o H5N1 do clado 2.3.4.4b já havia sido confirmado em elefantes-marinhos da ilha Heard, um território externo australiano subantártico localizado a mais de 4 mil quilômetros de Perth. Naquele momento, as autoridades destacaram que a detecção não alterava o status do continente australiano.

A mudança ocorreu em 20 de junho de 2026, quando o vírus foi confirmado em uma skua-parda migratória encontrada perto de Esperance, na Austrália Ocidental. A Organização Mundial de Saúde Animal identificou a amostra como H5N1 de alta patogenicidade, clado 2.3.4.4b — o mesmo grande grupo predominante na panzootia global.

Nas semanas seguintes, as detecções deixaram de se restringir a aves migratórias ocasionais. Em 10 de julho, uma gaivina-de-poupa encontrada na Austrália Meridional tornou-se a primeira ave marinha silvestre não migratória do país com resultado positivo para H5.

No começo de agosto, vieram os primeiros eventos de mortalidade em massa atribuídos ao vírus. Depois, a lista de espécies começou a crescer.



Esse histórico exige duas cautelas. A primeira é não comparar diretamente os números anteriores e posteriores a 12 de agosto: o país mudou a unidade de contagem de indivíduos para eventos. A segunda é respeitar o estágio do diagnóstico.

A primeira detecção em golfinho foi divulgada como H5 e encaminhada ao laboratório nacional para caracterização adicional; sem o resultado dessa tipagem, chamá-la de H5N1 extrapolaria o dado oficial.


Leão-marinho-australiano sentado na areia, visto de perto e com a cabeça erguida.
Leão-marinho-australiano (Neophoca cinerea), espécie ameaçada que passou a integrar os registros de H5 na fauna do país em setembro de 2026. A fotografia é ilustrativa e não mostra um animal infectado. Foto: Warren Garst/Colorado State University Libraries, via Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

O avanço ganhou um novo componente em 13 de setembro, quando a Austrália Meridional confirmou H5 em um leão-marinho-australiano encontrado em Seal Bay, na Ilha Kangaroo. A espécie, endêmica do país, é classificada como ameaçada pela legislação ambiental australiana.

A ocorrência merece atenção por unir saúde animal e conservação, mas um resultado positivo isolado não revela sozinho como o animal se infectou nem comprova transmissão entre mamíferos.

Na atualização federal específica sobre a raposa, de 28 de agosto, as autoridades informaram que não havia evidência de transmissão de mamífero para mamífero no país.

As atualizações consultadas até 15 de setembro não anunciaram mudança nessa avaliação. A raposa, por exemplo, pode representar um salto isolado após contato com aves ou carcaças contaminadas — mecanismo já observado em carnívoros silvestres de outros continentes.


Infográfico mostra 542 eventos de H5 na fauna australiana em 2026, distribuídos por estados e espécies afetadas.
A Austrália contabilizava 542 eventos de H5 na fauna até 14 de setembro de 2026, concentrados principalmente na Austrália Meridional e em Victoria. Os registros incluem espécies como pinguim-pequeno, lobo-marinho-de-focinho-longo, leão-marinho-australiano, raposa-vermelha e golfinho. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?

A campanha com pequenos-pinguins chamou atenção porque parece desafiar uma limitação básica: como aplicar duas doses em milhares de aves que vivem livres?

Phillip Island oferece uma condição rara. Os pequenos-pinguins retornam às mesmas colônias e tocas, o que permite capturar, identificar e reencontrar parte dos indivíduos. O programa prevê imunizar mais de 5 mil aves em Phillip Island e St Kilda. Cada uma precisa receber duas doses.

A estratégia não pretende interromper sozinha a circulação do vírus. O próprio governo de Victoria reconhece que a vacinação não impedirá que o H5 circule entre aves silvestres; a meta é reduzir o impacto sobre populações vulneráveis e produzir conhecimento para futuras respostas de conservação.

Na Austrália Meridional, o programa aprovado para o Cleland Wildlife Park segue outra lógica: proteger um grupo pequeno e manejável. Até 100 aves de mais de 30 espécies devem receber duas doses, aplicadas com intervalo de três a quatro semanas. A lista inclui espécies ameaçadas, como o papagaio-de-barriga-laranja e o comedor-de-mel-regente.

Portanto, não se trata de espalhar vacina em ecossistemas nem de capturar indiscriminadamente toda ave livre. É vacinação direcionada a populações prioritárias que podem ser identificadas, recapturadas e acompanhadas.

E há um detalhe importante diante da desinformação: a vacina utilizada nessas campanhas não é de RNA mensageiro. A chefe do serviço veterinário australiano informou à AAP FactCheck que o produto é uma vacina inativada baseada em subtipo H5N2. O vírus vacinal está inativado, não se replica e não provoca a doença.


Grupo de pequenos-pinguins abrigado sob uma estrutura de madeira em Phillip Island, na Austrália.
Pequenos-pinguins (Eudyptula minor) abrigados sob uma estrutura de madeira em Phillip Island, na Austrália. A imagem é ilustrativa e não indica que os animais fotografados estejam infectados pelo H5N1. Foto: Genet/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Em 12 de agosto, quando Victoria anunciou o programa, era verdade que nenhum pequeno-pinguim australiano havia testado positivo. Em 15 de agosto, porém, as autoridades confirmaram H5N1 em uma ave morta de Phillip Island. A vacinação começou no dia 17.

Publicações contrárias à campanha continuaram usando o trecho antigo de uma reportagem, gravado antes da confirmação, para afirmar que “nenhum pinguim teve gripe aviária”. A frase havia sido verdadeira no dia 12 e se tornado falsa no dia 15.

Esse caso revela uma forma recorrente de desinformação sanitária: retirar uma afirmação de sua data e apresentá-la como se ainda descrevesse a situação atual. Em surtos que mudam diariamente, o carimbo de tempo faz parte do fato.


Pesquisadora com roupa de proteção e rede aproxima-se de pinguins-gentoo em terreno rochoso na Antártica.
Integrante da equipe de Gripe Aviária do Instituto Milenio BASE caminha entre pinguins-gentoo (Pygoscelis papua) durante trabalho de campo na Antártica, na 61ª Expedição Científica Antártica do Instituto Antártico Chileno, em janeiro de 2025. A imagem documenta o monitoramento da influenza aviária e não indica que os animais fotografados estavam infectados. Foto: Constanza Barrientos/Instituto Milenio BASE, via Wikimedia Commons — CC BY 4.0.

Do outro lado do mundo, o Uruguai oferece uma lição diferente. Em 4 de setembro, o Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai (MGAP) confirmou influenza aviária H5 de alta patogenicidade em aves de quintal no departamento de Colonia. A suspeita surgiu após a morte de aves de diferentes espécies.

Um teste rápido inicial deu negativo. Mesmo assim, diante do quadro observado, amostras foram enviadas ao laboratório oficial — e o vírus foi confirmado.

Isso não significa que testes rápidos sejam inúteis. Eles servem como ferramentas de triagem e podem acelerar decisões, mas um resultado negativo não exclui a doença em todas as circunstâncias. Momento da coleta, qualidade da amostra e sensibilidade do método influenciam o resultado. Quando os sinais e o contexto epidemiológico sustentam a suspeita, a investigação precisa continuar.

A confirmação levou o Uruguai a declarar emergência sanitária em todo o país, restringir a movimentação de aves de quintal e de animais fora do sistema oficial de monitoramento, determinar alojamento coberto para aves de quintal e criações free range e suspender feiras, exposições e eventos com aves.

Duas galinhas de criação doméstica em um quintal.
Galinhas mantidas em uma criação doméstica, exemplo do que as autoridades sanitárias classificam como “aves de quintal”. A fotografia é ilustrativa e não mostra os animais envolvidos no foco de influenza aviária registrado em Colonia, no Uruguai. Foto: Isalinky/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

O episódio foi especialmente significativo porque uma emergência anterior havia sido encerrada formalmente em 28 de abril, após mais de 54 dias sem novos focos e com todos os eventos fechados.

Em 7 de setembro, equipes já haviam vistoriado 34 propriedades num raio de cinco quilômetros do novo foco. Não havia mortalidade recente nos locais visitados nem estabelecimentos avícolas comerciais dentro do raio de dez quilômetros definido para o rastreamento.

Até a consulta às atualizações públicas do ministério uruguaio em 15 de setembro, não havia sido divulgado um novo foco nem a identificação N1 para o episódio de Colonia.

Também aqui a precisão é essencial: a resolução uruguaia confirma H5, mas não publica a identificação N1. Até que essa caracterização seja divulgada, o correto é falar em influenza aviária H5 de alta patogenicidade — não afirmar que o foco foi causado por H5N1.






A resposta curta é: atenção proporcional ao risco, sem pânico.

Na avaliação conjunta mais recente, baseada em dados até 1º de março de 2026 e publicada em maio, FAO, Organização Mundial da Saúde e Organização Mundial de Saúde Animal classificaram como baixo o risco global dos vírus H5 de alta patogenicidade para a população em geral.

Para pessoas expostas com frequência — trabalhadores de granjas, equipes de abate sanitário, tratadores, veterinários, pesquisadores e pessoas que manejam aves de quintal — o risco foi considerado de baixo a moderado, dependendo da situação local e das medidas de proteção.

Infecções humanas esporádicas continuam ocorrendo, principalmente após contato direto com animais infectados ou ambientes contaminados. A OMS afirma que os vírus zoonóticos de influenza atualmente em circulação não demonstraram transmissão sustentada entre pessoas.

Isso não elimina a necessidade de vigilância. Cada novo hospedeiro oferece ao vírus oportunidades de replicação e mudança. Por isso, casos em mamíferos, surtos em rebanhos e infecções humanas ligadas à exposição animal devem ser investigados rapidamente e acompanhados geneticamente.

Mas vigilância não é sinônimo de previsão. A presença do H5N1 em aves e mamíferos não permite afirmar que uma pandemia humana esteja em curso ou seja inevitável. Uma pandemia exigiria, entre outros fatores, capacidade de transmissão contínua entre pessoas — algo que não foi observado até agora.


Profissionais com roupas de proteção desinfetam um caminhão durante resposta à influenza aviária nos Estados Unidos.
Pneus, parte inferior e contêiner de um caminhão são lavados e desinfetados durante a resposta à influenza aviária de alta patogenicidade em Iowa, nos Estados Unidos, em 2015. A medida ajuda a evitar o transporte do vírus entre propriedades. Foto: Mike Milleson/USDA APHIS, via Wikimedia Commons — CC BY 2.0.

Não há evidência de transmissão dos vírus de influenza aviária por carne de aves ou ovos corretamente manipulados e cozidos.

O foco uruguaio ocorreu em aves de quintal, e as atualizações oficiais consultadas até 15 de setembro não informavam casos em aves comerciais.

O cuidado alimentar continua sendo o de sempre: não consumir animais encontrados mortos, evitar contaminação cruzada na cozinha, higienizar mãos e superfícies e cozinhar adequadamente os alimentos.

O risco mais importante não está no prato preparado de forma correta, mas no contato desprotegido com aves ou mamíferos doentes, mortos ou com seus ambientes contaminados.


O Brasil registrou sua primeira detecção de influenza aviária de alta patogenicidade em 15 de maio de 2023, em aves silvestres. Desde então, a doença passou a fazer parte de uma vigilância permanente que envolve fauna, produção avícola e notificação de suspeitas.

O avanço internacional reforça três prioridades brasileiras:

  • manter as aves domésticas afastadas das aves silvestres e proteger a água e os alimentos do acesso da fauna livre;
  • comunicar mortalidades incomuns e sinais respiratórios, neurológicos ou queda abrupta de produção ao Serviço Veterinário Oficial;
  • não tocar nem recolher aves e mamíferos silvestres encontrados doentes ou mortos.

Suspeitas podem ser notificadas ao Ministério da Agricultura pelo e-Sisbravet, disponível na página oficial sobre influenza aviária.

A proximidade geográfica de um foco no Uruguai merece acompanhamento, especialmente no Sul do Brasil, mas não autoriza concluir que o vírus cruzou a fronteira. Vigilância serve justamente para substituir suposição por evidência.


Infográfico explica os sinais de influenza aviária e como agir diante de aves doentes ou mortas no Brasil.
Dificuldade respiratória, alterações neurológicas e digestivas ou mortalidade incomum podem exigir atenção. Não toque, recolha ou transporte aves doentes ou mortas: mantenha distância e notifique o Serviço Veterinário Oficial pelo e-Sisbravet. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?

O H5N1 merece atenção não porque toda nova detecção anuncie uma pandemia humana, mas porque a panzootia já produz danos concretos.

Ela mata fauna silvestre em escala capaz de afetar colônias reprodutivas, pressiona espécies ameaçadas, impõe abates e perdas à avicultura, exige mudanças de manejo em criações domésticas, alcança mamíferos e consome recursos de laboratórios e serviços veterinários.

Em alguns locais, ainda cria risco ocupacional para quem trabalha diretamente com animais infectados. É um problema clássico de Uma Só Saúde: saúde animal, saúde humana, conservação ambiental e produção de alimentos não funcionam como compartimentos separados.

Os próximos sinais decisivos não serão apenas o total de eventos. Será preciso acompanhar:

  • se o vírus entra em aves comerciais ou outros sistemas produtivos ainda preservados;
  • se surgem novas cadeias sustentadas de transmissão entre mamíferos;
  • quais mudanças genéticas aparecem durante a circulação em novos hospedeiros;
  • se infecções humanas continuam ligadas à exposição animal ou adquirem outro padrão;
  • quanto a vacinação direcionada consegue reduzir mortes em populações silvestres manejáveis;
  • e se os países mantêm transparência, capacidade laboratorial e velocidade de resposta.

O fato mais importante, por enquanto, é duplo: o H5N1 ampliou de forma extraordinária seu alcance entre espécies, mas não adquiriu transmissão sustentada entre seres humanos.

Entre ignorar o problema e anunciar uma catástrofe inevitável existe o caminho mais responsável: acompanhar os dados, proteger quem se expõe e levar a saúde animal a sério.


Ilustração sobre o H5N1 em aves e mamíferos reúne diferentes espécies da fauna australiana.
Representação ilustrativa dos diferentes grupos de animais atingidos ou colocados sob vigilância com o avanço do H5 na Austrália, incluindo aves marinhas, pinguins, mamíferos marinhos, golfinho e raposa. A composição não representa uma cena real nem indica transmissão direta entre as espécies. Imagem criada com inteligência artificial para o site Que Papo é Esse, Bicho?