Gorila macho de dorso prateado no Parque Nacional Impenetrável de Bwindi, em Uganda.

Dia Mundial do Gorila: em Uganda, conservação une floresta, saúde e renda

Neste 24 de setembro, o Dia Mundial do Gorila em Uganda ganha um significado especial nas comunidades que vivem junto à floresta de Bwindi, longe de discursos e cerimônias.


Nos últimos dias, moradores da região de Ruhija, nos arredores do Parque Nacional Impenetrável de Bwindi, participaram de plantio de árvores, limpeza comunitária, atividades esportivas, encontros sobre conservação e atendimento médico gratuito. A mobilização foi organizada pela organização comunitária Change A Life-Bwindi, com apoio da Uganda Wildlife Authority (UWA) e de outros parceiros. Mais de 120 moradores receberam atendimento de saúde durante uma das ações realizadas na região.

Parece, à primeira vista, uma programação que mistura assuntos diferentes. Mas justamente aí está a mensagem deste Dia Mundial do Gorila: a proteção dos animais não termina na fronteira de uma área protegida.

Em lugares onde pessoas e grandes animais selvagens dividem um território muito próximo, conservar uma espécie significa também lidar com saúde, renda, acesso a serviços públicos, uso da terra e conflitos entre seres humanos e fauna.


Bwindi abriga uma das duas populações existentes de gorilas-da-montanha (Gorilla beringei beringei). A outra vive no maciço de Virunga, que se estende por Uganda, Ruanda e República Democrática do Congo.

As comunidades instaladas ao redor das áreas protegidas convivem diretamente com as consequências da conservação. São elas que podem enfrentar danos em plantações causados por animais, restrições ao uso de recursos naturais e encontros com fauna silvestre. Ao mesmo tempo, são essas populações que podem trabalhar como guias, carregadores, funcionários de parques e pousadas, artesãos e fornecedores de produtos para o turismo.

Por isso, Uganda mantém um sistema de compartilhamento da receita gerada pelas áreas protegidas. Segundo a UWA, 20% da receita de entrada dos parques é destinada a comunidades vizinhas. Em Bwindi, há ainda o repasse de US$ 10 de cada autorização vendida para a visita aos gorilas. O dinheiro pode financiar projetos como escolas, unidades de saúde, sistemas de água, criação de animais, apicultura, plantio de árvores e iniciativas destinadas a diminuir conflitos com a fauna.

Em junho de 2025, a UWA informou ter distribuído 2.197.559.618 xelins ugandenses para comunidades da área de conservação Bwindi-Mgahinga. Kanungu, Kisoro e Rubanda receberam recursos destinados a projetos escolhidos localmente, incluindo educação, saúde, água e alternativas de geração de renda.

É uma forma de transformar uma ideia abstrata — “preservar a biodiversidade” — em algo que possa ser percebido no cotidiano de quem vive ao lado da floresta.


Fêmea de gorila-da-montanha come uma raiz na floresta de Bwindi, em Uganda.
Fêmea de gorila-da-montanha se alimenta de uma raiz no setor Buhoma, na floresta de Bwindi, em Uganda. Foto: Charles J. Sharp / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

O esforço acumulado ao longo de décadas produziu resultados.

Segundo a Uganda Wildlife Authority, o primeiro levantamento realizado em Bwindi, em 1992, contabilizou cerca de 300 gorilas-da-montanha. O número subiu para aproximadamente 320 em 2002, 340 em 2006 e chegou a 459 indivíduos no levantamento de 2018.

Somado ao levantamento da população de Virunga, esse resultado levou ao número de referência de 1.063 gorilas-da-montanha no mundo. A recuperação foi importante o suficiente para que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) alterasse a classificação da subespécie de Criticamente em Perigo para Em Perigo.

Mas há uma informação nova e importante em 2026: esse número deverá ser atualizado.

Um novo levantamento populacional foi realizado e as autoridades aguardam a conclusão das análises genéticas de DNA para divulgar os resultados de 2025/2026. Portanto, por enquanto, os 459 animais registrados em Bwindi em 2018 continuam sendo o último número oficial consolidado para aquela população.

E sair da categoria de “criticamente ameaçado” não significa estar fora de perigo. A subespécie continua ameaçada e depende de uma combinação de proteção do habitat, fiscalização, acompanhamento veterinário, pesquisa científica e cooperação entre os três países onde ocorre. Mudanças climáticas, doenças, pobreza nas comunidades vizinhas e conflitos entre seres humanos e animais seguem entre os desafios apontados para a região.


Gorilas-da-montanha entre a vegetação da floresta de Bwindi, em Uganda.
Gorilas-da-montanha em meio à vegetação do Parque Nacional Impenetrável de Bwindi, em Uganda. Foto: Diego Delso / delso.photo — CC BY-SA 4.0.

Uganda também se tornou referência por uma ideia que hoje parece evidente, mas nem sempre foi incorporada à conservação: a saúde humana e a saúde dos animais selvagens estão conectadas.

A veterinária ugandense Gladys Kalema-Zikusoka, que começou a trabalhar com a UWA em Bwindi na década de 1990, relata que um surto de sarna entre gorilas ajudou a evidenciar o risco de transmissão de doenças entre seres humanos e animais.

A experiência contribuiu para a criação, em 2003, da organização Conservation Through Public Health, que trabalha com a abordagem conhecida como Saúde Única — ou One Health: a ideia de que saúde humana, saúde animal e equilíbrio ambiental não podem ser tratados separadamente.

Isso ajuda a entender por que um atendimento médico oferecido a moradores próximos de Bwindi também pode fazer parte de uma estratégia de conservação.

Uma comunidade com melhor acesso à saúde, alternativas de renda e participação nas decisões tende a ter uma relação muito diferente com uma área protegida daquela que recebe apenas proibições e custos.


Visitantes observam um gorila acompanhados por guarda-florestal em Bwindi, Uganda.
Visitantes observam um gorila na floresta de Bwindi acompanhados por um guarda-florestal. O turismo de observação está diretamente ligado à conservação e à economia da região. Foto: Eaksuganda / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

Essa história, porém, não deve ser apresentada como se todos os problemas estivessem resolvidos.

Documentos recentes ligados à própria gestão de Bwindi reconhecem dificuldades enfrentadas pelo povo Batwa, historicamente ligado às florestas da região. Consultas realizadas com essas comunidades apontaram problemas como acesso à terra, baixa participação em decisões e desigualdade no acesso aos benefícios de programas de compartilhamento de receitas.

Esse é um ponto importante porque mostra que conservação comunitária não é simplesmente distribuir dinheiro gerado pelo turismo. Ela também exige participação real, acesso aos benefícios e atenção às populações que historicamente arcaram com parte dos custos da criação das áreas protegidas.

Proteger os gorilas e reconhecer as necessidades humanas não são objetivos opostos. No longo prazo, um depende do outro.


Visitante participa de dança tradicional com membros da comunidade Batwa perto do Parque Nacional dos Gorilas de Mgahinga, em Uganda.
Visitante participa de dança tradicional com membros da comunidade Batwa nas proximidades do Parque Nacional dos Gorilas de Mgahinga, no sudoeste de Uganda. A relação entre comunidades locais, turismo e conservação faz parte do contexto da proteção dos gorilas-da-montanha no país. Foto: Happyartst/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0.

O Dia Mundial do Gorila foi criado em 2017 e é celebrado em 24 de setembro, data em que, em 1967, a primatóloga Dian Fossey fundou o Centro de Pesquisa Karisoke, em Ruanda. A iniciativa chama atenção para a conservação das quatro subespécies de gorila existentes.

Em Uganda, a principal cerimônia nacional deste ano foi remarcada para 1º de outubro, mas as atividades comunitárias começaram antes e mantêm a celebração acontecendo justamente onde seu significado é mais concreto: perto dos gorilas e das pessoas que convivem com eles.

A história de Bwindi oferece uma lição que vale muito além de Uganda.

Quando uma espécie ameaçada começa a se recuperar, raramente existe uma única explicação. Há fiscais na floresta, veterinários, pesquisadores, comunidades, políticas públicas, turismo, escolas, hospitais, agricultores e pessoas encontrando maneiras de viver sem que a sobrevivência da fauna precise significar a perda de seu próprio futuro.

Salvar gorilas, neste caso, também significa construir uma paisagem na qual pessoas e floresta consigam continuar existindo juntas.