Quando se fala em animais e mudanças climáticas, a relação costuma aparecer em uma única direção: ondas de calor, secas, incêndios, perda de habitat e alterações nos oceanos ameaçam a fauna. A ciência, porém, chama atenção para o outro lado dessa relação.
Animais selvagens também participam ativamente do funcionamento dos ecossistemas e, por meio de atividades tão naturais quanto comer, caminhar, caçar, cavar, defecar ou dispersar sementes, podem influenciar a quantidade de carbono armazenada na vegetação, no solo e nos oceanos.
Essa é a mensagem central de um artigo revisado por pares publicado nesta sexta-feira, 25 de setembro, na revista científica Global Change Biology. O trabalho dá respaldo acadêmico ao Scientific Consensus on Wildlife and Climate, iniciativa lançada em junho e já endossada por mais de 350 cientistas de diferentes países.
A conclusão não é que um tigre, um dugongo ou um elefante retire diretamente dióxido de carbono da atmosfera como uma árvore faz durante a fotossíntese. O mecanismo é mais complexo — e talvez justamente por isso tenha permanecido tanto tempo fora do centro das políticas climáticas.
“Da dispersão de sementes à predação, comportamentos naturais da fauna podem alterar o armazenamento de carbono e a emissão de gases de efeito estufa.”
O carbono passa também pelos animais
Plantas são fundamentais para o ciclo do carbono. Mas elas não vivem isoladas. Ao redor delas existem herbívoros que se alimentam de folhas e frutos, predadores que controlam populações desses herbívoros, animais que transportam sementes, espécies que revolvem o solo e outras que movimentam nutrientes entre diferentes partes de um ecossistema.
Essas interações podem modificar quanto as plantas crescem, onde elas se estabelecem, como nutrientes circulam e quanto carbono permanece armazenado no ambiente.
Pesquisas anteriores já descrevem diferentes mecanismos pelos quais a fauna interfere nesse processo: alimentação, deposição de nutrientes, movimentação de matéria orgânica, perturbação do solo e dispersão de sementes, entre outros.
É por isso que os pesquisadores defendem que avaliar apenas árvores, solos ou vegetação pode oferecer uma imagem incompleta de algumas chamadas soluções climáticas baseadas na natureza.
Os animais fazem parte da engrenagem.

Do fundo do mar às florestas
Os exemplos aparecem em diferentes ecossistemas. Nas pradarias marinhas, dugongos se alimentam das plantas, revolvem sedimentos, redistribuem nutrientes e podem dispersar sementes. Essas atividades alteram a dinâmica das pradarias — ambientes capazes de armazenar carbono por longos períodos.
No oceano aberto, grandes baleias também participam da reciclagem de nutrientes. Ao se alimentarem em profundidade e liberarem nutrientes próximos à superfície, elas podem favorecer o fitoplâncton, organismos microscópicos que retiram CO₂ da atmosfera durante a fotossíntese.
Em terra firme, a história pode envolver até grandes predadores.

O que um tigre tem a ver com carbono?
O tigre não “captura carbono”. Ele caça herbívoros. E a presença ou ausência desses predadores pode modificar o número e o comportamento das presas, alterando a pressão que elas exercem sobre a vegetação.
Pesquisa publicada anteriormente na própria Global Change Biology encontrou associação entre a presença de tigres e maiores estoques de carbono na vegetação e no solo, embora os resultados variassem de acordo com o tipo de floresta e outras condições ambientais.
É o chamado efeito em cascata. Um predador influencia suas presas; as presas influenciam plantas; e essas mudanças podem chegar ao ciclo de carbono do ecossistema. E esse detalhe é importante: o efeito não é igual em todos os lugares.
Em alguns ambientes, a presença de determinada espécie pode aumentar o armazenamento de carbono; em outros, o resultado pode ser pequeno, diferente ou até seguir outra direção. A ciência precisa considerar espécie, abundância, habitat e todas as relações existentes naquele sistema.
Isso impede uma interpretação simplista do tipo “mais animais = mais carbono armazenado”.

Comer, cavar, transportar, adubar
Há inúmeras maneiras de um animal modificar seu ambiente. Grandes herbívoros podem transformar a estrutura da vegetação. Animais escavadores revolvem e aeram o solo. Aves e mamíferos transportam sementes para áreas onde novas plantas poderão crescer. Predadores reorganizam cadeias alimentares. Animais marinhos transportam nutrientes entre profundidades e regiões diferentes. E fezes e carcaças devolvem nutrientes e matéria orgânica ao ambiente.
O consenso lançado neste ano resume essa relação em três pontos: comportamentos naturais da fauna podem influenciar processos relevantes para o clima; esses processos contribuem para armazenamento de carbono, regeneração e estabilidade dos ecossistemas; e ignorar os animais pode tornar incompleta a avaliação de algumas soluções climáticas baseadas na natureza.

De vítimas a participantes do sistema climático
É uma mudança importante de perspectiva.
A fauna continua sendo uma das grandes vítimas da crise climática. Temperaturas crescentes, alterações nas chuvas, incêndios, aquecimento dos oceanos e perda de habitat já transformam populações animais em diferentes regiões do planeta.
O novo trabalho não diminui essa ameaça. Ele acrescenta outra peça à história: quando uma população animal desaparece, não perdemos apenas indivíduos ou espécies. Podemos perder também funções ecológicas que aquela população desempenhava. E algumas dessas funções têm consequências para o próprio clima.
É por isso que conservação da biodiversidade e enfrentamento das mudanças climáticas não deveriam ser tratados como problemas independentes.

Ciência com participação brasileira
Entre os 13 autores do artigo está a pesquisadora Ana Cristina Mendes-Oliveira, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
O grupo reúne pesquisadores ligados a instituições da China, Estados Unidos, Suíça, Ruanda, Reino Unido, Nigéria, Brasil, Dinamarca, Índia e outros países, além da World Federation for Animals.
O trabalho também amplia o respaldo científico de um movimento iniciado em junho, quando 287 pesquisadores de seis continentes lançaram o consenso durante as reuniões intermediárias da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Bonn. Desde então, o número de apoiadores ultrapassou 350.
Em 2025, Ana Cristina Mendes de Oliveira também participou de debates sobre ciência, clima e Amazônia durante a COP30, em programação do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA.
E por que isso importa agora?
Porque faltam poucas semanas para a COP31, a conferência climática das Nações Unidas. O encontro será realizado entre 9 e 20 de novembro, em Antalya, na Turquia, e pesquisadores e organizações envolvidas no consenso querem que as funções ecológicas desempenhadas pelos animais apareçam com mais clareza em políticas, modelos e estratégias climáticas.
Uma iniciativa internacional chamada Wildlife for Climate Declaration também está prevista para avançar nesse período, defendendo maior reconhecimento da fauna como parte de ecossistemas resilientes ao clima.
Não significa transformar animais em “créditos de carbono” nem substituir a redução de emissões de combustíveis fósseis por conservação. Soluções naturais complementam — não substituem — cortes profundos nas emissões humanas de gases de efeito estufa. Mesmo nas estratégias climáticas baseadas na natureza, benefícios precisam ser mensurados com cuidado e sem dupla contagem.
O que a nova abordagem propõe é algo diferente: se queremos conservar florestas, oceanos, campos e outros ambientes capazes de armazenar carbono, precisamos conservar também os animais que ajudam esses ecossistemas a funcionar.
Talvez a pergunta climática, portanto, não seja apenas quanto carbono existe em uma floresta. Mas também: quem mantém essa floresta viva?

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Fontes: “Wildlife and Climate” Scientific Consensus on the Roles of Wild Animals in the Global Carbon Cycle and Natural Climate Solutions — Global Change Biology; Peer-reviewed article on wildlife and climate connection published in Global Change Biology — World Federation for Animals; Scientific Consensus on Wildlife and Climate — Wildlife and Climate Consensus; Wild animals are our climate allies, peer-reviewed study reaffirms — Oceanographic; Global Tiger Density Linked With Forest Carbon Stock, Top-Down and Bottom-Up — Global Change Biology; COP31 — United Nations Framework Convention on Climate Change.
Foto de capa: Tisha Mukherjee/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

