Axolote recebido pelo Cetas de Barueri após determinação judicial.

53 axolotes chegam a centro de triagem em SP: por que o animal que regenera partes do corpo está ameaçado de extinção

O Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) de Barueri recebeu 46 axolotes adultos e cerca de sete indivíduos em estágio larval por determinação judicial. A espécie mexicana é famosa pela capacidade de regeneração, mas enfrenta uma situação crítica de ameaça de extinção em seu ambiente natural.


Um grupo pouco comum passou pelo CETAS de Barueri, na Grande São Paulo: cerca de 53 axolotes (Ambystoma mexicanum), salamandras aquáticas originárias do México e conhecidas mundialmente por sua extraordinária capacidade de regeneração.

Foi a primeira vez que o CETAS do município recebeu animais dessa espécie. Segundo a Prefeitura de Barueri, eram 46 adultos e aproximadamente sete indivíduos em estágio larval, encaminhados ao centro por determinação judicial.

Os animais chegaram em boas condições de saúde. Apenas um apresentava uma possível deformação congênita, de acordo com a médica-veterinária e gestora do CETAS, Larissa Rezende Paulino.

Depois da passagem pelo centro de triagem, os axolotes foram encaminhados para um empreendimento de fauna registrado no órgão ambiental estadual e autorizado para o manejo de animais silvestres.



A informação oficial divulgada em 23 de setembro não detalha o processo judicial que determinou a entrega dos animais nem informa onde eles estavam anteriormente.

Por isso, não é possível afirmar, apenas com os dados divulgados até agora, que os 53 axolotes tenham sido apreendidos em uma operação contra tráfico de animais, que estivessem sendo vendidos ilegalmente ou que viessem de um criadouro clandestino.

O que está confirmado é que uma determinação judicial estabeleceu o encaminhamento diretamente ao CETAS.

O caso levou o próprio centro a reforçar um alerta sobre a procedência de animais comercializados no país. A orientação é verificar documentação e regularidade do responsável pela venda antes de qualquer aquisição de animal, seja de espécie nativa ou exótica.

No Brasil, o axolote é considerado uma espécie exótica: sua distribuição natural não inclui o território brasileiro.


Axolotes encaminhados ao Cetas de Barueri em São Paulo.
Alguns dos cerca de 53 axolotes recebidos pelo CETAS Barueri. 46 dos axolotes eram adultos e aproximadamente sete estavam em estágio larval. Fotos: Divulgação/SEMA Barueri.

Apesar da aparência incomum — e das estruturas semelhantes a pequenas plumas ao redor da cabeça —, o axolote não é um peixe. Ele é um anfíbio da ordem das salamandras.

O Ambystoma mexicanum apresenta uma característica chamada neotenia: mesmo depois de atingir a maturidade sexual, mantém características associadas à fase larval. Entre elas estão justamente as conhecidas brânquias externas, utilizadas para realizar trocas gasosas na água.

Enquanto muitas salamandras passam por metamorfose e assumem uma forma adulta adaptada à vida terrestre, o axolote normalmente permanece aquático durante toda a vida. E essa já seria uma característica biológica extraordinária. Mas não é a responsável por sua maior fama científica.


Infográfico explica características do axolote, como brânquias externas, vida aquática e capacidade de regeneração.
O axolote mantém características larvais na fase adulta e consegue regenerar estruturas complexas. Apesar de amplamente criado em cativeiro, enfrenta situação crítica em seu habitat natural. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?

Se um axolote perde um membro, seu organismo é capaz de iniciar um processo muito diferente da simples cicatrização que ocorre em seres humanos.

As células próximas à região lesionada participam da formação de uma estrutura chamada blastema, associada à reconstrução dos tecidos perdidos.

O resultado pode envolver a regeneração organizada de estruturas complexas, incluindo ossos, músculos, vasos sanguíneos, nervos e pele.

A capacidade regenerativa não se limita aos membros. Axolotes são utilizados há décadas como organismos-modelo em pesquisas que investigam regeneração de estruturas do sistema nervoso e de outros tecidos.

E o tema continua produzindo descobertas. Pesquisas publicadas em 2026 investigaram, por exemplo, os mecanismos celulares envolvidos na regeneração do cérebro e da medula espinhal dos axolotes. Outro estudo deste ano mostrou que esses animais conseguem reconstruir tecidos da mandíbula após determinados tipos de amputação, embora os pesquisadores também tenham encontrado limites para essa capacidade regenerativa.

Entender como essas células coordenam uma reconstrução tão complexa ajuda cientistas a investigar uma pergunta muito maior: por que alguns vertebrados conseguem regenerar estruturas que outros, como nós, não conseguem?

Isso não significa que axolotes possam simplesmente “regenerar qualquer parte do corpo” indefinidamente. O processo varia conforme o tecido, o tipo e a localização da lesão e outros fatores biológicos.

Infográfico sobre a regeneração do axolote e sua capacidade de reconstruir partes do corpo.
Infográfico mostra por que o axolote é conhecido por sua impressionante capacidade de regeneração, uma das características biológicas mais fascinantes da espécie. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?





Talvez o aspecto mais surpreendente da história do axolote seja o contraste entre sua enorme popularidade e sua situação no ambiente natural.

O Ambystoma mexicanum é endêmico do México e historicamente ocupava lagos e áreas úmidas do Vale do México. Atualmente, sua distribuição natural está fortemente associada ao sistema de canais e áreas alagadas de Xochimilco, na Cidade do México.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica a espécie como Criticamente Em Perigo. Entre as principais ameaças estão a perda e degradação do habitat, urbanização, poluição da água e a presença de espécies introduzidas, como carpas e tilápias, que podem competir com os axolotes ou predar seus ovos e indivíduos jovens.

Dados divulgados pela Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) ajudam a dimensionar a queda: levantamentos realizados em Xochimilco encontraram cerca de 6 mil axolotes por quilômetro quadrado em 1998. Em 2014, a estimativa havia caído para aproximadamente 36 por quilômetro quadrado.

Por isso, pesquisadores mexicanos trabalham não apenas na reprodução do animal, mas principalmente na restauração do ecossistema de Xochimilco. Salvar o axolote selvagem depende também de salvar o lugar onde ele evoluiu.


O axolote é reproduzido em cativeiro em diferentes partes do mundo e tornou-se importante tanto para laboratórios quanto para aquários e coleções.

Essa abundância fora da natureza pode criar uma impressão enganosa: se existem tantos axolotes sob cuidados humanos, por que a espécie continua criticamente ameaçada?

Porque manter animais em cativeiro não substitui uma população selvagem funcional em seu próprio ecossistema.

Populações mantidas por gerações fora da natureza podem ter características genéticas distintas, e qualquer programa de reintrodução precisa considerar origem, diversidade genética, saúde dos animais e condições ambientais.

Pesquisadores da UNAM vêm testando justamente estratégias de conservação em Xochimilco. Um estudo divulgado em 2025 mostrou que axolotes criados sob cuidados humanos podem sobreviver em ambientes restaurados e artificiais adequadamente manejados, oferecendo informações importantes para futuros programas de conservação.

Não se trata, portanto, de simplesmente criar muitos axolotes e soltá-los.


Axolote de Xochimilco fotografado no Zoológico de Chapultepec, na Cidade do México.
Axolote de Xochimilco (Ambystoma mexicanum) fotografado no Zoológico de Chapultepec, na Cidade do México. Foto: José Luiz Bernardes Ribeiro / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

O Ambystoma mexicanum está incluído no Apêndice II da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).

A inclusão não significa uma proibição absoluta de todo comércio internacional, mas estabelece mecanismos de controle para que a movimentação comercial não ameace a sobrevivência da espécie na natureza.

No Brasil, a situação dos animais exóticos envolve ainda regras ambientais próprias sobre importação, criação, manutenção e comércio.

Por isso, o alerta feito pelo CETAS após receber os 53 axolotes é especialmente importante: popularidade na internet ou disponibilidade anunciada para venda não são, por si só, garantia de procedência regular.


Axolote mexicano da espécie Ambystoma mexicanum.
O axolote (Ambystoma mexicanum) é uma salamandra mexicana conhecida mundialmente por sua extraordinária capacidade de regeneração. Foto: Oscar J Duran / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Os 53 animais não permaneceram no CETAS.

Segundo a Prefeitura de Barueri, eles foram encaminhados para um empreendimento de fauna registrado e autorizado para manejo de animais silvestres.

Também não poderiam simplesmente ser libertados em algum lago ou rio brasileiro. O axolote não pertence à fauna nativa do país, e a introdução de espécies em ecossistemas dos quais elas não fazem parte pode provocar impactos ambientais.

Por enquanto, ainda faltam informações públicas sobre a origem dos animais e sobre o processo judicial que levou à entrega.

Mas a passagem incomum de dezenas deles por um centro de triagem brasileiro chama atenção para um contraste que vai muito além de sua aparência curiosa.

O axolote tornou-se personagem de jogos, objeto de pesquisas científicas e animal reconhecido em diferentes partes do planeta. No lugar onde sua história começou, porém, sua sobrevivência continua ligada a uma tarefa muito mais difícil do que regenerar uma pata: preservar e recuperar o ambiente do qual ele depende.