Na maior ave brasileira, é o macho quem constrói o ninho. O pai ema incuba dezenas de ovos e, depois da eclosão, ainda passa meses protegendo e conduzindo os filhotes.
Uma ema sentada sobre uma grande quantidade de ovos pode provocar uma interpretação quase automática: “é a mãe chocando”, mas, nessa espécie, provavelmente estamos olhando para o pai.
Na ema (Rhea americana), a maior ave do Brasil, o macho assume praticamente todo o cuidado parental depois que os ovos são postos. O pai ema prepara o ninho, faz a incubação e, quando os filhotes nascem, continua responsável por protegê-los e conduzi-los. E pode ser uma família bem numerosa.
“Quando as fêmeas deixam o ninho, o trabalho dele está apenas começando: durante semanas, o pai ema permanece sobre os ovos e, depois, segue ao lado dos filhotes.”
Primeiro, o pai ema prepara a casa
A história começa antes dos ovos. Durante o período reprodutivo, o macho estabelece seu território, corteja várias fêmeas e prepara no solo um ninho raso, cercado por vegetação. Diferentes fêmeas podem colocar seus ovos no mesmo ninho. Segundo a Embrapa, um único macho pode chegar a chocar de 10 a 60 ovos.
Um estudo de campo realizado com emas na Argentina encontrou ninhos com 12 a 56 ovos, com média próxima de 25. Os pesquisadores observaram ainda que os machos já começavam a cuidar do ninho quando havia apenas alguns ovos depositados, ou seja: não é necessariamente uma mãe, um pai e seus próprios ovos formando uma família como costumamos imaginar. O sistema reprodutivo das emas é bem mais complexo.

E por que as fêmeas vão embora?
Porque colocar os ovos encerra boa parte do investimento parental delas naquela ninhada.
As emas apresentam um sistema de acasalamento que combina poliginia e poliandria: um macho pode acasalar com várias fêmeas e uma mesma fêmea também pode acasalar com diferentes machos ao longo da estação reprodutiva.
Depois de depositar ovos no ninho de um macho, as fêmeas podem seguir adiante, formar outro grupo reprodutivo e colocar ovos em outro ninho. Enquanto isso, o primeiro macho permanece responsável pela ninhada que recebeu. Não porque tenha ocorrido “abandono” no sentido humano da palavra, mas porque essa é a estratégia reprodutiva da espécie.
Chocar tantos ovos exige dedicação
E não se trata simplesmente de sentar sobre eles de vez em quando. No estudo publicado em The Auk — hoje Ornithology — os machos permaneceram envolvidos com os ovos durante cerca de 42 dias. No meio e no final da incubação, passaram aproximadamente 97,5% do tempo no ninho.
Essa permanência faz diferença. Segundo os pesquisadores a presença do macho ajudava a manter os ovos acima das temperaturas mínimas necessárias durante as noites. A pesquisa também revelou que o cuidado do pai ema estava associado a uma menor perda de ovos em comparação com os ninhos sem atenção.
O Zoológico de Brasília informa que o pai ema é responsável por um período aproximado de incubação de 45 dias, uma variação compatível com os dados observados na pesquisa de campo. Durante esse período, o pai está fazendo muito mais do que “esperando os ovos abrirem”.

Quando os filhotes nascem, o pai ema continua cuidando
Depois da eclosão dos ovos, a história muda de cenário, mas não de cuidador.
Os filhotes de ema são chamados de nidífugos: pouco depois de nascer, já conseguem se locomover. Um estudo realizado no Rio Grande do Sul registrou que, em menos de um dia, eles podem andar e correr. Diferentemente de muitas aves, não ficam no ninho esperando que o pai coloque alimento diretamente em seus bicos. Nesse caso, o papel do macho é outro.
O pai ema conduz os filhotes, vigia o ambiente, reúne o grupo, ajuda a ocultá-los diante de riscos e reage a possíveis ameaças. No estudo brasileiro, conduzir as crias foi o comportamento parental registrado com maior frequência. E esse trabalho pode durar bastante.
Observações em vida livre mostram machos acompanhando os jovens durante aproximadamente quatro a seis meses. Nesse período, eles passam mais tempo em vigilância do que machos sem filhotes, especialmente enquanto as crias ainda são pequenas.

Leia também: Por que o cavalo-marinho macho engravida e dá à luz?
O pai ema também paga um preço
Ficar tanto tempo dedicado ao ninho e depois aos filhotes custa muita energia do pai ema. Os pesquisadores estimaram que a energia transferida pelo macho aos ovos durante a incubação poderia equivaler às reservas existentes em cerca de 5 quilos de gordura. Isso significa algo entre 15% e 20% da massa do adulto.
Os autores consideram que essa elevada exigência pode ajudar a explicar por que apenas parte dos machos observados chega a tentar nidificar (fazer ou usar um ninho para colocar ovos e criar os filhotes) em uma determinada estação reprodutiva.
Depois que os filhotes nascem, o custo continua: o pai ema precisa conciliar alimentação com longos períodos de atenção e vigilância.

Uma ave brasileira com uma família nada convencional
As emas são animais encontrados em áreas abertas da América do Sul. No Brasil, ocorrem especialmente em campos e cerrados.
A ema é a maior ave brasileira. Também é uma ave incapaz de voar, embora as grandes asas tenham um papel importante durante a corrida e nas mudanças de direção.
Mas talvez uma de suas características mais surpreendentes esteja justamente no ninho, onde várias fêmeas podem depositar os seus ovos antes de seguirem com o próprio ciclo reprodutivo.
E aquele macho que ficou? Durante semanas o pai ema incuba os ovos e, depois da eclosão, passa a acompanhar uma pequena multidão de filhotes.

Leia também: Pai sagui: por que ele carrega os filhotes nas costas?
Fontes: informações da Embrapa sobre a ema (Rhea americana), sua reprodução, alimentação e construção do ninho pelo macho; estudo brasileiro publicado na Revista de Etologia sobre o comportamento parental de machos de ema com filhotes em ambiente natural no Rio Grande do Sul; estudo publicado em The Auk, atual Ornithology, sobre incubação, sobrevivência dos ovos, custos energéticos e cuidado dos filhotes pelos machos de ema; guia do ICMBio com informações sobre a ema (Rhea americana) e sua ocorrência no Brasil e informações do Zoológico de Brasília sobre reprodução e período de incubação da ema.
Foto de capa: LadyofHats/Wikimedia Commons — domínio público

