A história diz que alguns animais já foram candidatos em eleições. Rinoceronte, bode, chimpanzé, gato, cão, mula, porco e até um pônei já apareceram em campanhas e votações pelo mundo. Mas nem todos foram realmente candidatos. Alguns dos casos mais famosos são bem diferentes da história que a internet costuma contar.
Às vésperas de uma eleição, é comum ouvir que determinada disputa está “pegando fogo” e que candidatos estão “correndo por fora”. Ou ainda que alguém virou uma “zebra”, mas, ao longo da história, alguns animais entraram nas eleições de maneira muito mais literal.
No Brasil, eleitores já escreveram em cédulas os nomes de um bode, uma rinoceronte e um chimpanzé. Nos Estados Unidos, uma mula chegou a vencer uma eleição partidária sem que os eleitores soubessem que estavam votando em um animal. Em outros lugares, cães, gatos, cabras e até cavalos receberam títulos de prefeito, quase sempre honorários e sem qualquer poder público.
Há ainda animais transformados em candidatos satíricos, protagonistas de enquetes informais ou representantes de campanhas beneficentes. Por isso, antes de dizer que um bicho “foi eleito”, é preciso perguntar: ele concorreu a uma eleição oficial? Os votos tinham validade? O cargo existia legalmente? Ou tudo fazia parte de uma brincadeira, manifestação ou campanha de arrecadação? A resposta muda bastante de caso para caso.
“Nem todo animal chamado de “prefeito”, “vereador” ou “candidato” realmente disputou uma eleição. Entre votos inválidos, sátiras, cargos honorários e campanhas beneficentes, a história é ainda mais curiosa do que parece.”
Antes de Cacareco, o Brasil já tinha o Bode Ioiô
Um dos primeiros episódios brasileiros conhecidos aconteceu em Fortaleza, no Ceará. O Bode Ioiô tornou-se personagem popular da cidade no início do século XX. Circulava pelas ruas centrais de Fortaleza e ficou tão integrado ao cotidiano local que acabou entrando também para o folclore político.
Segundo os registros preservados pelo Governo do Ceará e pelo Museu do Ceará, em 1922 moradores escreveram o nome de Ioiô nas cédulas de uma eleição para vereador. A tradição popular conta que o bode teria recebido votos suficientes para ser “eleito”.
Mas há uma diferença importante entre memória popular e resultado eleitoral documentado. Pesquisas históricas ressaltam que esses votos não foram oficialmente apurados de forma que permita estabelecer quantos Ioiô recebeu ou afirmar que realmente superou os candidatos humanos. O que está solidamente documentado é a transformação do episódio em símbolo da cultura popular de Fortaleza.
Ioiô morreu em 1931 e o seu corpo foi preservado por taxidermia, sendo incorporado ao acervo do Museu do Ceará.
ELE FOI MESMO ELEITO?
Não oficialmente. Houve votos escritos em seu nome e o episódio entrou para a história popular como uma “eleição”, mas não houve posse nem mandato, e o número exato de votos não está documentado.

Bode Cheiroso: outro caprino apareceu nas urnas brasileiras
Mais de três décadas depois, outro bode ganhou votos. Em 1955, moradores de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, escreveram Cheiroso nas cédulas para a Câmara Municipal.
E neste caso existe um precioso registro jornalístico daquele mesmo ano. Em 16 de outubro de 1955, o jornal O Estado publicou uma nota informando que, na apuração para a Câmara Municipal de Jaboatão, o Bode Cheiroso teria recebido 448 votos. A Câmara Municipal de São Paulo também menciona o episódio em seu levantamento histórico sobre votos dados a animais no Brasil. Mas, naturalmente, Cheiroso não poderia ocupar uma cadeira na Câmara.
ELE FOI MESMO ELEITO?
Não. Cheiroso, recebeu votos escritos por eleitores, mas não era candidato legal.

Cacareco: quase 100 mil votos para uma rinoceronte
O caso brasileiro que se tornou internacionalmente conhecido aconteceu em São Paulo, em 1959. Cacareco era uma rinoceronte-fêmea que havia sido emprestada pelo zoológico do Rio de Janeiro para São Paulo. O animal se tornou uma atração popular e acabou transformado em “candidata” a vereadora.
A brincadeira ganhou dimensão de campanha: houve propaganda, santinhos e até jingle. Quando as cédulas foram abertas, aproximadamente 100 mil votos traziam o nome de Cacareco.
A documentação histórica da Câmara Municipal de São Paulo registra o episódio e o enquadra entre os mais conhecidos exemplos brasileiros de voto de protesto. Como Cacareco não era candidata registrada, aqueles votos não eram votos válidos para uma candidatura, mas o caso ganhou repercussão suficiente para transformar “voto Cacareco” numa expressão associada ao voto de protesto.
ELA FOI MESMO ELEITA VEREADORA?
Não. Cacareco recebeu aproximadamente 100 mil manifestações nas cédulas, mas nunca foi candidata legal e nem poderia tomar posse.


E até o mosquito da dengue entrou na urna
Nem sempre o “candidato animal” foi um indivíduo. Em 1987, durante uma epidemia de dengue em Vila Velha, no Espírito Santo, eleitores escreveram “mosquito” em milhares de cédulas na eleição municipal.
Relatos históricos registram 29.668 cédulas com a referência ao mosquito, quantidade superior à votação atribuída a candidatos humanos na disputa. Os votos, entretanto, eram inválidos.
É um caso diferente dos demais: não existia um mosquito específico transformado em celebridade eleitoral. O próprio Aedes aegypti, transmissor da dengue, foi quem tornou-se o símbolo da manifestação.
Macaco Tião: o chimpanzé que recebeu uma multidão de votos no Rio
Em 1988, chegou a vez de um dos animais mais famosos do Brasil: o chimpanzé Tião. O morador do Zoológico do Rio de Janeiro foi transformado em candidato humorístico à prefeitura pela Casseta Popular.
A campanha ganhou slogan, material humorístico e enorme repercussão. O próprio Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro preserva hoje a história de Tião em sua memória institucional e confirma que ele recebeu número expressivo de votos. Há referências recorrentes a aproximadamente 400 mil, embora esse total não seja uma estatística eleitoral oficial individualizada.
O que sabemos oficialmente é que votos contendo “Macaco Tião” eram considerados nulos. Uma decisão do TRE-RJ de dezembro de 1988 registrou expressamente que votar em Tião provocava a nulidade da cédula.
TIÃO FICOU MESMO EM TERCEIRO LUGAR?
É melhor colocar um asterisco nessa história. O número aproximado de 400 mil votos tornou-se amplamente citado, mas não corresponde a uma totalização oficial de candidatura, já que Tião não era candidato registrado. Portanto, podemos dizer que teria alcançado posição equivalente entre os concorrentes segundo estimativas não oficiais, e não que oficialmente terminou a eleição em terceiro.


Boston Curtis: a mula que realmente venceu uma eleição partidária
Talvez este seja um dos casos mais extraordinários de todos. Em 1938, moradores de Milton, no estado americano de Washington, encontraram na cédula um candidato chamado Boston Curtis para uma função partidária local do Partido Republicano.
Cinquenta e um eleitores votaram nele e Boston Curtis venceu, mas havia um detalhe: Boston Curtis era uma mula marrom.
A candidatura havia sido registrada pelo prefeito de Milton, Kenneth Simmons, como uma brincadeira destinada a demonstrar que eleitores poderiam votar em um nome sem conhecer quem, ou o que, estavam escolhendo. A revista Time noticiou o episódio naquele mesmo ano e registrou os 51 votos recebidos pelo animal.
BOSTON CURTIS FOI MESMO ELEITO?
Sim, dentro daquela disputa partidária local. E é justamente isso que torna o caso tão diferente de Cacareco ou Tião: a mula estava formalmente registrada sob um nome que não revelava aos eleitores que o “candidato” era um animal.

Pigasus: o porco lançado à Presidência dos Estados Unidos
Em Chicago, no ano de 1968, em plena Convenção Nacional Democrata, integrantes do Youth International Party, os Yippies, apresentaram um porco chamado Pigasus como o seu candidato à Presidência dos Estados Unidos. Era uma ação satírica, não uma candidatura eleitoral válida.
O episódio fazia parte das performances políticas organizadas pelo movimento durante um período de grandes manifestações nos Estados Unidos. O Smithsonian registra Pigasus entre as ações promovidas pelo ativista Abbie Hoffman e pelos Yippies naquele ano.
PIGASUS CONCORREU À PRESIDÊNCIA?
Não oficialmente, pois o porco foi um candidato satírico apresentado em uma manifestação política.

Bosco: o cachorro “prefeito” da Califórnia
Na pequena comunidade de Sunol, na Califórnia, um cão chamado Bosco venceu dois adversários humanos numa votação comunitária.
Uma reportagem da Associated Press publicada pelo Los Angeles Times em 1987 registrava Bosco como uma celebridade local e lembrava sua vitória sobre dois humanos, mas existe novamente uma pegadinha institucional.
Sunol é uma comunidade não incorporada. Portanto, Bosco não ocupava uma prefeitura municipal com poderes equivalentes aos de um prefeito eleito de uma cidade formalmente constituída. O seu título era comunitário e simbólico.
BOSCO FOI PREFEITO?
Prefeito honorário/comunitário, não prefeito municipal com poder governamental.

Stubbs: talvez o “prefeito animal” mais famoso
Durante anos, a internet repetiu uma história irresistível, na qual os moradores de Talkeetna, no Alasca, insatisfeitos com os candidatos humanos teriam escrito o nome do gato Stubbs na cédula em 1997, elegendo-o prefeito. No entanto, havia um problema: Talkeetna não possui prefeito.
O Smithsonian investigou a história e classificou a suposta eleição como parte da lenda criada em torno de Stubbs. O gato realmente se tornou uma celebridade e foi tratado localmente como prefeito honorário, mas não venceu uma eleição municipal oficial.
Stubbs manteve o título informal durante anos e ajudou a transformar Talkeetna em atração turística.
STUBBS FOI ELEITO?
Não. E este talvez seja o melhor exemplo de como uma história simpática pode ganhar detalhes falsos à medida que é repetida.

A dinastia dos bodes Clay Henry
Em Lajitas, Texas, outra tradição transformou bodes em “prefeitos”.
Animais chamados Clay Henry e seus sucessores tornaram-se símbolos turísticos da pequena comunidade. Os títulos eram honorários. Lajitas não entregou a administração pública a uma família de caprinos.
Os Clay Henry também ficaram conhecidos por uma prática que hoje merece uma observação importante de bem-estar animal: turistas ofereciam cerveja aos bodes. O fato de isso ter se tornado uma atração tradicional não transforma o consumo de álcool por animais em uma prática recomendável.

Steveprutz / Wikimedia Commons — CC0 1.0.
Rabbit Hash: votos que ajudam a preservar uma comunidade
A pequena Rabbit Hash, Kentucky, transformou a eleição de animais em tradição.
Desde o fim dos anos 1990, cães e outros animais recebem votos em eleições simbólicas para “prefeito”. A votação funciona também como forma de arrecadação para a preservação da comunidade histórica.
Aqui, portanto, o voto não escolhe uma autoridade municipal com poderes executivos. Escolhe um prefeito honorário.
Vídeo/documentário: Rabbit Hash: The Heart of the Universe (2004), dirigido por Norbert Sander, acompanha os primeiros anos da tradição dos cães-prefeitos e a comunidade em torno do General Store.
Omena: um dólar, um voto
Em Omena, Michigan, a brincadeira tem regras transparentes. A Omena Historical Society realiza desde 2009 eleições para o prefeito animal. Qualquer pessoa pode votar, quantas vezes quiser e cada voto custa US$ 1. O dinheiro é destinado à preservação do museu histórico local.
Em 2024, o vencedor foi Lucky Dinero Bosco, um cavalo. A própria organização registra também ex-prefeitos cães e a gata Sweet Tart. A próxima eleição está prevista para 2027.
ELEIÇÃO DE VERDADE?
Eleição comunitária beneficente para cargo honorário. Aqui, “comprar votos” não é crime: é literalmente a regra da arrecadação.
Lincoln: uma cabra toma posse em Vermont
Em 2019, Fair Haven, Vermont, realizou uma eleição de animais criada inicialmente para arrecadar recursos para um playground. A vencedora foi Lincoln, uma cabra núbia de três anos. Ela recebeu faixa de prefeita e participou de uma cerimônia de posse na prefeitura.
Mas Fair Haven não possui prefeito de verdade. O cargo de Lincoln era honorário e a iniciativa acabou funcionando também como atividade de educação cívica para crianças da comunidade.
A família Max em Idyllwild
Outra linhagem curiosa vive em Idyllwild, na Califórnia. Desde 2012, golden retrievers chamados Max ocupam o posto honorário de prefeito.
Segundo a própria organização responsável pelo “gabinete”, já houve Max I, Max II e Max III, este último ocupando atualmente o título. A função é explicitamente não partidária e comunitária, mas nenhum deles governa administrativamente Idyllwild.
Vídeo: Mayor Max III, prefeito honorário de Idyllwild, Califórnia. Publicação do perfil oficial Mayor Max no Facebook.
Morris e a onda de “candidatos animais” no México
Em 2013, o gato Morris apareceu como candidato simbólico à prefeitura de Xalapa, Veracruz, no México. A sua campanha cresceu tanto nas redes sociais que Morris acumulou mais seguidores do que os candidatos humanos registrados.
Ele não constava oficialmente na cédula, mas seus organizadores pediam que os apoiadores escrevessem o seu nome ou desenhassem um gato no voto. Contudo, a autoridade eleitoral de Veracruz avisou que essas cédulas seriam consideradas inválidas, apesar disso o fenômeno espalhou-se.
Surgiram campanhas de Maya, outra gata; Tina, uma galinha; Chon, um burro; Titan, um são-bernardo; além dos gatos Benito e Muffin em outras cidades mexicanas. Eram candidaturas simbólicas, não registros eleitorais válidos.
MORRIS FOI CANDIDATO OFICIAL?
Não. Foi um fenômeno de campanha e redes sociais associado a votos que seriam inválidos.
El candigato, publicado pelo canal EstrellaTV no YouTube em 21 de junho de 2013. O vídeo apresenta a campanha simbólica do gato Morris à prefeitura de Xalapa, no México.
Barsik: 90% numa eleição que não era eleição
Em 2015, outro gato conquistou manchetes internacionais. Barsik, de Barnaul, na Sibéria, recebeu mais de 90% dos votos numa consulta realizada em uma rede social sobre quem deveria comandar a cidade.
Parece uma vitória esmagadora, mas Barsik não havia vencido uma eleição municipal. Tratava-se de uma enquete informal na internet. Naquele sistema, a escolha do administrador da cidade seria feita por uma comissão formada pelo conselho municipal e pelo governo regional.
BARSIK FOI ELEITO PREFEITO?
Não. Ele venceu uma enquete popular não oficial.
Patrick: o pônei “prefeito” inglês
Em julho de 2022, os moradores de Cockington, na Inglaterra, transformaram o pônei miniatura Patrick em prefeito honorário.
Patrick já era conhecido na região como animal de terapia, visitando hospitais, escolas e grupos de recuperação. Uma petição bem-humorada levou a uma cerimônia de nomeação acompanhada por moradores e autoridades locais, mas, novamente, o cargo era não oficial.
Patrick ganhou até um “gabinete” improvisado em um pub, um cercado com feno, que posteriormente se envolveu numa controvérsia sobre regras locais de uso do espaço.
PATRICK GOVERNOU COCKINGTON?
Não. O título era honorário.
Vídeo publicado pelo perfil oficial @celebrity_pony mostra Patrick, o pônei que recebeu o título honorário de prefeito de Cockington, na Inglaterra. O cargo é simbólico e não corresponde a uma prefeitura municipal oficial.
E a tradição continua em 2026
O fenômeno está longe de ter desaparecido. Neste ano, o abrigo Teller County Regional Animal Shelter, no Colorado, realizou mais uma edição da eleição para “prefeito” de Divide. Podiam participar animais de diferentes espécies e cada voto funcionava como uma doação para o abrigo.
O vencedor de 2026 foi o cão Ringo Starr, com 3.648 votos, seguido por Napoleon, com 2.975.
A campanha arrecadou US$ 20 mil para os animais atendidos pela instituição. A organização mantém registros de prefeitos animais de Divide desde 2010, incluindo cães, gato e até um representante de um centro de conservação de lobos.
E não é um fenômeno isolado: Omena continua realizando suas eleições beneficentes; Fair Haven mantém a tradição de prefeitos animais; comunidades como Rabbit Hash adotaram seus próprios pleitos simbólicos; e Oakridge, no Oregon, abriu em 2026 uma eleição de “Pet Mayor” em que cães, gatos, galinhas, cabras, lagartos e outros animais podem concorrer, com cada voto revertido em arrecadação comunitária.
No Canadá, Kero, uma shiba inu de três anos, foi recentemente escolhida “Dog Mayor” de uma área para cães no bairro Ranchlands, em Calgary — título comunitário e recreativo, não cargo público.
Os bichos continuam em campanha, mas agora sabemos perguntar que eleição é essa.
Nem toda eleição animal é igual
Depois de mais de um século de bodes, rinocerontes, chimpanzés, mulas, gatos e cachorros nas urnas reais ou imaginárias, os casos podem ser separados em grupos bem diferentes.
Votos dados a animais em eleições reais: Bode Ioiô, Bode Cheiroso, Cacareco e Macaco Tião aparecem em cédulas brasileiras, embora não fossem candidatos válidos.
Candidatura satírica ou manifestação: Pigasus, Morris e outros animais foram apresentados como candidatos sem que pudessem legalmente assumir o cargo.
Eleição ou consulta informal: Barsik venceu uma enquete; Bosco recebeu votos numa disputa comunitária.
Prefeitura honorária e beneficente: Stubbs, Lincoln, Max, os prefeitos de Omena, Rabbit Hash e Divide pertencem ao universo das tradições comunitárias, turismo e arrecadação.
Eleição formal excepcional: Boston Curtis é o caso mais surpreendente desta lista porque a mula efetivamente apareceu registrada pelo nome numa disputa partidária em 1938 e recebeu os votos necessários para vencer.
É por isso que dizer simplesmente que “animais já foram eleitos prefeitos e vereadores pelo mundo” produz uma história divertida — mas não necessariamente verdadeira. A história real é melhor.

Infográfico: Que Papo é Esse, Bicho?
E o cavalo de Calígula?
Ele aparece em praticamente toda lista sobre “animais na política”. Segundo a história repetida há quase dois milênios, o imperador romano Calígula teria nomeado, ou planejado nomear, o seu cavalo Incitatus cônsul de Roma, mas não devemos apresentar isso como fato histórico estabelecido.
As fontes antigas contribuíram para a imagem de Calígula como governante extravagante, mas historiadores questionam a interpretação literal da história. O próprio Smithsonian classifica como provavelmente falsa a lenda de que Calígula tentou transformar Incitatus em cônsul.
INCITATUS VIROU CÔNSUL?
Não há evidência histórica segura de que isso tenha acontecido.
Talvez seja apropriado terminar justamente com ele: quando animais e política aparecem juntos, a história costuma ser tão irresistível que a lenda pode correr mais rápido que os fatos.
Dos votos de papel às urnas de 2026
No Brasil, histórias como as de Cacareco e Tião pertencem também a uma tecnologia eleitoral que ficou para trás: a cédula de papel que permitia escrever nomes que sequer pertenciam aos candidatos registrados.
Neste domingo, 4 de outubro de 2026, o Brasil realiza o primeiro turno das Eleições Gerais. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.463 eleitoras e eleitores estão aptos a votar. A votação ocorre das 8h às 17h, pelo horário de Brasília.
Bode Ioiô, Cacareco e Macaco Tião ficaram do outro lado dessa história, no tempo em que uma cédula também podia terminar carregando o nome de um bicho. Entretanto, tantas décadas depois, continuamos contando essas histórias, não porque os animais tenham governado cidades.
Mas porque, em diferentes épocas e lugares, eles realmente apareceram em cédulas, campanhas, enquetes, eleições comunitárias e deixaram algumas das páginas mais insólitas da história eleitoral.
Fontes: Governo do Ceará/Secult — Bode Ioiô e o centenário da “eleição” de 1922; Câmara Municipal de São Paulo — registros históricos sobre Cacareco e votos dados a animais; Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo — Banco de Imagens: Cacareco no Zoológico de São Paulo; Hemeroteca da Biblioteca Pública de Santa Catarina — O Estado, 1955: registro dos 448 votos atribuídos ao Bode Cheiroso; Band — registros históricos de animais que receberam votos no Brasil, incluindo o mosquito de Vila Velha; Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro — Eleições de 1988 e o caso Macaco Tião; TIME — National Affairs: Boston Curtis, 1938; City of Milton — histórico local e o caso Boston Curtis; Smithsonian Magazine — Pigasus e as ações políticas dos Yippies em 1968; Local News Matters — Bosco Ramos, o cão que virou prefeito honorário de Sunol; Smithsonian Magazine — a história real de Stubbs, o gato de Talkeetna; Fort Worth Star-Telegram — tradição dos bodes Clay Henry em Lajitas, Texas e Smithsonian Magazine — Calígula e a lenda de Incitatus.
Fontes complementares: Rabbit Hash — histórico dos cães-prefeitos e das eleições comunitárias; Omena Historical Society — eleições para prefeito animal em Omena; Bangor Daily News — Lincoln, a cabra escolhida prefeita honorária de Fair Haven; Mayor Max — site oficial da tradição dos prefeitos honorários de Idyllwild; Animal Político — campanha do Candigato Morris em Xalapa, México; The Guardian — Barsik e a enquete informal em Barnaul, na Sibéria; ITV News — Patrick, o pônei nomeado prefeito honorário de Cockington; Teller County Regional Animal Shelter — Mayor of Divide e eleição beneficente de 2026.
Fundamentação e contexto eleitoral: Revista Mexicana de Sociología / UNAM — La diversidad del voto nulo en México: estudo sobre voto nulo, protesto cívico e diferentes motivações; Latin American Politics and Society — “I Would Prefer Note To”: estudo sobre votos inválidos e protesto político na América Latina; Government and Opposition — What Affects Invalid Voting? revisão e meta-análise sobre fatores associados ao voto inválido e Tribunal Superior Eleitoral — Eleições 2026 e eleitorado apto.
Foto de capa: Ilustração editorial produzida com inteligência artificial para o Que Papo é Esse, Bicho?

