Peixe-boi nadando em área protegida de Crystal River, na Flórida.

Peixe-boi cercado por banhistas em Pernambuco: por que não se deve tocar em animais silvestres

Vídeos gravados na Praia do Cupe, em Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco, mostram mais de dez pessoas cercando e tocando um peixe-boi-marinho. O caso é apurado pelas autoridades, que chamam a atenção para os riscos de uma interação que pode parecer inofensiva, mas que interfere no comportamento dos animais silvestres.


Um peixe-boi-marinho cercado por banhistas na Praia do Cupe, em Ipojuca, no Litoral Sul de Pernambuco, chamou atenção nas redes sociais nos últimos dias. Vídeos feitos no último fim de semana mostram mais de dez pessoas nadando ao redor do animal. Algumas se aproximam, tocam seu corpo e o acompanham pela água.

As imagens provocaram críticas e chegaram aos órgãos ambientais. Nesta quarta-feira (30), a Prefeitura de Ipojuca informou que analisa os registros para identificar os envolvidos e verificar as circunstâncias da ocorrência. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por sua vez, classificou as condutas registradas como molestamento de sirênio, infração prevista na legislação ambiental.

O episódio traz uma questão que vai além daquele encontro em Pernambuco: quando um animal silvestre se aproxima, até onde podemos nos aproximar dele? No caso dos peixes-bois, a orientação é clara: observar à distância, sem tocar, alimentar, cercar ou impedir o deslocamento do animal.



A Praia do Cupe fica em Ipojuca, na região turística de Porto de Galinhas. Os vídeos que repercutiram nas redes mostraram um grupo numeroso de pessoas dentro da água junto ao peixe-boi.

O ICMBio informou que tomou conhecimento do episódio pelas redes sociais e entrou em contato com a fiscalização ambiental municipal. Segundo o instituto, as condutas observadas nas imagens devem ser enquadradas como molestamento de sirênio.

A Prefeitura de Ipojuca afirmou que mobilizou agentes ambientais e a equipe de salvamento marítimo após ser informada da presença do animal. O município também disse que recebeu denúncias e está analisando as imagens para identificar os participantes e decidir quais medidas administrativas serão adotadas.

Há uma diferença entre os relatos oficiais sobre o fim da ocorrência. A Prefeitura informou que suas equipes acompanharam a situação e conduziram o peixe-boi para uma área considerada segura. Já o ICMBio declarou à imprensa que o animal não precisou ser resgatado e conseguiu se afastar naturalmente.

O instituto informou ainda que o peixe-boi visto nas imagens não havia sido identificado, mas poderia ser uma fêmea anteriormente solta na natureza e possivelmente portadora de marcação e chip de monitoramento. Por isso, não é possível afirmar com segurança a identidade do animal apenas a partir dos vídeos disponíveis.



Para uma pessoa, passar a mão em um animal pode parecer um gesto de carinho. Para um animal silvestre, entretanto, a aproximação humana pode ter consequências completamente diferentes.

O Manual de Boas Práticas de Interação com Sirênios no Brasil, elaborado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA/ICMBio), orienta que as pessoas não devem tocar ou tentar tocar em peixes-bois. Também não se deve cercar o animal, bloquear sua rota, oferecer comida ou líquidos, colocar pessoas sobre seu corpo ou forçar qualquer tipo de interação.

O contato e a aproximação excessiva podem provocar estresse e alterar comportamentos naturais. Quando várias pessoas cercam um animal, há outro problema: o espaço disponível para que ele escolha para onde ir pode ser reduzido. Por isso, o fato de um peixe-boi permanecer próximo das pessoas não deve ser interpretado automaticamente como um convite para carinho.


Peixe-boi-marinho submerso em ambiente natural.
Peixe-boi-marinho em ambiente aquático. A espécie ocorre no litoral brasileiro e enfrenta ameaças associadas às atividades humanas. Foto: Luciano Candisani / ICMBio.

Existe ainda um risco menos evidente: a habituação. As interações repetidas podem fazer com que determinados animais tolerem cada vez mais a presença humana ou passem a frequentar locais onde encontram pessoas, embarcações e atividades turísticas.

E essa proximidade pode aumentar a exposição a outros perigos, como por exemplo, no caso dos peixes-bois, colisões com embarcações e ferimentos provocados por hélices, ameaças associadas às atividades humanas. A aproximação constante também pode favorecer situações de toque, alimentação inadequada e interferência no comportamento natural do animal.

Um exemplo brasileiro ajuda a mostrar que esse risco não é apenas teórico.


Astro é um dos peixes-bois-marinhos mais conhecidos do Brasil. Ele foi o primeiro indivíduo da espécie reabilitado e reintroduzido na natureza no país, em 1994, e há mais de duas décadas frequenta áreas costeiras e estuarinas de Sergipe.

Sua história, porém, também se tornou um retrato dos riscos da convivência inadequada entre pessoas e animais silvestres. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), Astro já sofreu 34 colisões registradas com embarcações ao longo da vida. Em fevereiro de 2026, uma nova colisão provocou cinco cortes profundos em seu corpo, alguns causados por hélice, e exigiu semanas de tratamento.

Relatórios técnicos apresentados à Justiça também registraram episódios recorrentes de assédio por turistas e banhistas, incluindo tentativas de tocar e alimentar o peixe-boi e aproximações inadequadas.

Em agosto deste ano, a Justiça Federal determinou medidas emergenciais para protegê-lo, entre elas reforço da fiscalização náutica, ações de educação ambiental e medidas para reduzir o risco de novas colisões.

Astro tornou-se símbolo da conservação do peixe-boi-marinho. Sua trajetória também deixa uma mensagem importante: a familiaridade de um animal silvestre com seres humanos não elimina os perigos dessa proximidade, na verdade pode aumentá-los.



O peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) é um mamífero aquático herbívoro que, no Brasil, ocorre principalmente no litoral Norte e Nordeste. A espécie sofreu intensa pressão de caça no passado e continua enfrentando ameaças relacionadas às atividades humanas.

Em 2026, sua situação no país tornou-se ainda mais preocupante: a classificação nacional passou para Criticamente em Perigo (CR), a categoria de ameaça mais grave antes da extinção na natureza.

Entre os desafios para sua conservação estão a degradação de habitats costeiros e estuarinos, capturas acidentais, colisões com embarcações e outras formas de interação humana. Por isso, cada encontro com um peixe-boi também é uma oportunidade de convivência responsável com uma espécie cuja sobrevivência depende da redução dessas pressões.


Peixe-boi visto de frente debaixo d'água na Costa dos Corais, em Alagoas.
Peixe-boi durante ação de soltura na Costa dos Corais, em Alagoas. Foto: CMA/ICMBio.

O peixe-boi pertence à ordem dos sirênios, grupo de mamíferos aquáticos que inclui peixes-bois e dugongos. O artigo 30 do Decreto Federal nº 6.514/2008 estabelece multa de R$ 2.500 para quem molestar intencionalmente qualquer espécie de cetáceo, pinípede ou sirênio em águas brasileiras.

No episódio da Praia do Cupe, isso não significa que todas as pessoas mostradas nos vídeos já tenham sido multadas. A Prefeitura de Ipojuca informou que ainda analisa as imagens para identificar os envolvidos e apurar as circunstâncias do caso. Só depois dessa apuração poderão ser definidas eventuais responsabilizações.


Peixe-boi em recinto aquático durante acompanhamento de animais reintroduzidos.
O acompanhamento de peixes-bois reintroduzidos ajuda pesquisadores a avaliar a saúde e a adaptação dos animais após a reabilitação. Foto: CMA/ICMBio.

  • Mantenha distância. Observe sem se aproximar excessivamente;
  • Não toque. Mesmo que o animal se aproxime espontaneamente;
  • Não ofereça comida nem água. A alimentação interfere nos hábitos naturais e pode prejudicar sua saúde;
  • Não cerque o animal. Ele precisa ter uma rota livre para se deslocar;
  • Não monte nem coloque crianças sobre o peixe-boi. Além de inadequada para o animal, a situação também pode oferecer risco às pessoas;
  • Em embarcações, reduza a velocidade. Colisões e hélices podem provocar ferimentos graves;
  • Evite barulho e movimentos bruscos. A observação deve interferir o mínimo possível no comportamento do animal;
  • Se perceber um animal ferido, encalhado ou em situação de risco, acione os órgãos ambientais responsáveis, em vez de tentar manejá-lo por conta própria.
Infográfico com sete orientações para proteger um peixe-boi, como manter distância, não tocar, não alimentar e reduzir a velocidade de embarcações.
Encontrou um peixe-boi? Manter distância, não tocar, não alimentar e deixar o animal seguir seu caminho são atitudes importantes para proteger a espécie. Arte: Que Papo é Esse, Bicho?, criada por IA.

Encontrar um peixe-boi livre na natureza é uma experiência rara para muita gente. A curiosidade, a vontade de fotografar e até o impulso de tocar são compreensíveis, mas vida selvagem exige outra lógica. Não precisamos transformar todo encontro em contato para que ele seja especial.

Na Praia do Cupe, as imagens de pessoas ao redor de um único peixe-boi servem como alerta justamente porque mostram como uma situação aparentemente tranquila pode ultrapassar rapidamente o limite entre observar um animal e interferir em seu comportamento.

Quando um peixe-boi aparece, o melhor registro pode ser feito de longe e, às vezes, a maior demonstração de carinho por um animal silvestre é simplesmente deixá-lo seguir seu caminho.


Visitantes observam peixes-bois em recinto do Ecoparque Peixe-Boi.
A observação responsável permite conhecer os peixes-bois sem transformar a aproximação em contato direto com os animais. ICMBio/CMA.