Yoda, cão de assistência, observa o tutor Jhon Polanski durante a formatura.

Yoda percebe nervosismo do tutor durante formatura e fica pronto para ajudá-lo

Durante a colação de grau em Direito de Jhon Polanski, cão de assistência buscou contato visual e aguardou um sinal antes de intervir. Cena ajuda a explicar como animais treinados podem ampliar a autonomia e a segurança de pessoas com deficiência.


Em meio às becas, aos discursos e a toda a movimentação de uma cerimônia de formatura, Yoda Sheldon parecia tranquilo aos pés de seu tutor. Mas não estava simplesmente descansando.

Quando percebeu uma mudança no comportamento de Jhon Polanski, advogado autista, o cão de assistência voltou sua atenção para ele, procurou seu olhar e ficou preparado para agir.

Jhon fez um pequeno sinal indicando que estava bem.

Só então Yoda voltou a relaxar.

A interação, registrada durante a colação de grau em Direito da Unicesusc, em Florianópolis, foi compartilhada por Jhon nas redes sociais em 29 de agosto e passou a circular amplamente nos dias seguintes. O vídeo já acumulava mais de meio milhão de visualizações quando foi repercutido pela imprensa.

A cena discreta transformou-se em uma oportunidade para falar sobre algo ainda pouco compreendido: o trabalho de um cão de assistência.


Segundo Jhon, ele estava nervoso durante a cerimônia quando Yoda percebeu a alteração e buscou contato visual para verificar se sua intervenção era necessária.

O tutor respondeu com um sinal previamente conhecido pelo animal, indicando que conseguia lidar com aquele momento sem ajuda.

Essa pequena troca revela justamente um dos aspectos mais interessantes do treinamento: o objetivo não é fazer o cão reagir indiscriminadamente a qualquer emoção, mas ensiná-lo a reconhecer sinais relevantes e executar tarefas específicas de acordo com as necessidades daquela pessoa.

Yoda é um American Staffordshire Terrier e, segundo o relato de Jhon, passou por aproximadamente dois anos de preparação profissional desde filhote antes de desempenhar seu trabalho como cão de assistência.

Durante a cerimônia, Jhon também usava fones de ouvido como recurso para reduzir os estímulos sonoros e proporcionar maior conforto sensorial.




Sequência mostra Yoda procurando o olhar de Jhon e depois descansando aos pés do tutor durante a formatura.
A sequência mostra Yoda observando Jhon durante a cerimônia e voltando à posição de descanso após receber o sinal de que o tutor estava bem. Crédito das imagens: Reprodução/Instagram — @jhonpolanski.ranchojs.

“Cão de assistência” é um termo amplo para animais treinados para executar tarefas diretamente relacionadas às necessidades de uma pessoa com deficiência ou determinada condição de saúde.

Isso pode incluir, dependendo da pessoa e do treinamento:

  • interromper determinados comportamentos durante uma crise;
  • ajudar a criar espaço físico em ambientes cheios;
  • conduzir o tutor para um local mais tranquilo;
  • buscar outra pessoa;
  • recuperar objetos;
  • auxiliar na mobilidade;
  • responder a sinais previamente treinados;
  • alertar para determinadas alterações fisiológicas ou comportamentais.

Por isso, não é simplesmente a presença reconfortante de um cachorro que o transforma em cão de assistência. Há diferença entre companhia, suporte emocional e execução de tarefas treinadas.

No caso de pessoas autistas, o tipo de assistência também pode variar muito de uma pessoa para outra. Não existe uma única tarefa que todos esses cães devam desempenhar.


Esse é outro detalhe importante.

Algumas reportagens sobre Yoda o chamaram de “cão-guia”, mas essa denominação é específica para cães treinados para auxiliar pessoas cegas ou com deficiência visual.

Yoda é apresentado pelo próprio tutor como cão de assistência ou cão de serviço.

A diferença parece pequena, mas é importante para não misturar trabalhos distintos realizados por animais treinados.

Infográfico apresenta cinco modalidades de cães de assistência: cão-guia, cão-ouvinte, assistência à mobilidade, alerta e resposta médica e assistência a pessoas autistas.
Cães de assistência podem desempenhar diferentes tarefas conforme as necessidades da pessoa e o treinamento recebido. Eles não devem ser confundidos com animais de apoio emocional. Imagem ilustrativa criada com inteligência artificial para o Que Papo é Esse, Bicho?

Aqui a história de Yoda encontra uma discussão que está acontecendo agora no Congresso Nacional.

O Brasil possui proteção federal específica para o cão-guia, estabelecida pela Lei nº 11.126/2005, mas ainda não conta com uma regulamentação federal única e abrangente equivalente para todas as modalidades de cães de assistência. Algumas regras estaduais e municipais podem ampliar essa proteção em partes do país.

Há propostas em tramitação para mudar esse cenário.

O PL 4.489/2024, atualmente no Senado, busca assegurar a pessoas com deficiência ou condição grave de saúde que necessite de assistência específica o direito de ingressar e permanecer, acompanhadas de cão de assistência, em transportes e ambientes coletivos públicos ou privados.

O projeto recebeu parecer favorável da Comissão de Direitos Humanos do Senado em maio de 2025. Em 11 de setembro de 2026, permanecia em tramitação, aguardando a inclusão na Ordem do Dia de um requerimento que solicita a análise da Comissão de Serviços de Infraestrutura.

Em junho de 2026, também foi apresentado no Senado o PL 2.933/2026, que propõe instituir o Programa Nacional de Cães de Assistência e Suporte à Saúde. O texto prevê ações relacionadas a treinamento, certificação, disponibilização dos animais e direito de acesso a locais públicos e privados.

Na consulta realizada em 11 de setembro de 2026, o projeto ainda aguardava despacho.

Ou seja: não devemos afirmar que existe hoje uma regra federal única definindo certificação, raça, pedigree ou credencial obrigatória para todos os cães de assistência brasileiros.

Esse é justamente um ponto em que algumas matérias que repercutiram a história de Yoda simplificaram demais a questão.


Não existe uma raça universalmente obrigatória para desempenhar esse trabalho.

Características como temperamento estável, capacidade de aprendizagem, saúde, sociabilidade e adequação às tarefas necessárias são fundamentais. Algumas raças aparecem com maior frequência em determinados programas por apresentarem características consideradas previsíveis, mas o tipo de cão adequado também depende do trabalho que deverá executar.

A presença de Yoda é particularmente interessante por outro motivo: American Staffordshire Terriers ainda carregam muito estigma relacionado exclusivamente à aparência ou à raça.

O comportamento observado durante a cerimônia — permanecer calmo em meio ao público, ao ruído e à movimentação, monitorar o tutor e responder a sinais — é resultado de seleção individual, socialização, treinamento e vínculo.

Os documentos e requisitos relatados por Jhon, como pedigree, microchip, dados do treinador e acompanhamento veterinário, referem-se ao processo seguido por ele e por Yoda. Na ausência de uma regulamentação federal abrangente, essas exigências não devem ser apresentadas como uma obrigação nacional aplicável automaticamente a todos os cães de assistência do país.


Nos comentários do vídeo, muita gente brincou dizendo que Yoda também merecia receber um diploma, porque o momento da formatura simbolizava uma trajetória que ele também acompanhou.

Jhon compartilha nas redes sociais conteúdos sobre autismo, acessibilidade e sua rotina com o cão Yoda Sheldon. Segundo as reportagens que repercutiram o vídeo, ele afirmou ter sido o primeiro estudante autista da Unicesusc a obter registro como advogado na Ordem dos Advogados do Brasil.

E naquele palco, enquanto uma conquista acadêmica era celebrada, Yoda fazia exatamente aquilo para o qual havia sido preparado: observava, esperava e só interviria se fosse necessário.