Vídeo do biólogo e professor Paulo Jubilut parte da rotina de uma protetora de Teresina para mostrar por que resgate e castração, embora indispensáveis, não resolvem sozinhos um problema alimentado pelo abandono, pela falta de guarda responsável e pela ausência de políticas públicas contínuas.
Todos os dias, Raíssa Rocha precisa alimentar mais de 250 animais acolhidos em Teresina-PI. Médica-veterinária, protetora e fundadora da Casa Pet, ela acumulou cerca de R$ 100 mil em dívidas e passou a manter uma estrutura com cinco funcionários para cuidar de cães e gatos que, em grande parte, deveriam ter encontrado proteção antes de chegar ao abrigo.
A história abre o vídeo “Por que tem tanto animal de rua no Brasil?”, publicado pelo biólogo e professor Paulo Jubilut. Ao acompanhar a rotina de Raíssa, o conteúdo transforma uma realidade local em uma pergunta nacional: por que há tantos animais de rua no Brasil — e por que as ruas e os abrigos nunca esvaziam, mesmo com tantas pessoas dedicando a vida aos resgates?
A resposta não está na falta de esforço de quem protege. Está em um ciclo continuamente alimentado por animais abandonados ou autorizados a circular sem supervisão, ninhadas não planejadas, dificuldade de acesso a cuidados veterinários, adoções realizadas por impulso, ausência de identificação e políticas públicas insuficientes ou descontínuas.
O resgate salva quem está sofrendo agora. A castração evita novos nascimentos. Mas romper o ciclo exige que prevenção, educação, identificação, vacinação, atendimento veterinário, fiscalização e responsabilização avancem juntas.
“O problema não começa na rua. Ele começa antes: quando alguém assume um animal sem compreender a responsabilidade ou decide abandoná-lo quando o cuidado se torna difícil.”
Assista ao vídeo de Paulo Jubilut
O vídeo apresenta o caso de Teresina e aprofunda as dimensões social, sanitária, econômica e educacional do abandono. Jubilut também chama atenção para um ponto essencial: a castração é uma ferramenta de controle populacional, mas não substitui a responsabilidade de quem decide conviver com um animal nem a obrigação do poder público de criar políticas permanentes.
Em Teresina, capital do Piauí, pessoas ocupam o espaço deixado pelo poder público
Raíssa não está sozinha. Organizações e iniciativas como a Associação Piauiense de Proteção e Amor aos Animais (Apipa), o Lar do Nando, a Casa Pet e muitos protetores independentes alimentam, tratam, castram e procuram famílias para animais vítimas de abandono e maus-tratos.
Em outubro de 2025, reportagem de O Dia mostrou que o Lar do Nando abrigava aproximadamente 600 animais — cerca de 350 cães, 200 gatos e 20 jumentos. Segundo Fernando Machado, responsável pelo trabalho, as despesas mensais ficavam entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, incluindo cinco toneladas de ração, medicamentos, exames, pessoal e manutenção.
Em maio de 2026, a Prefeitura de Teresina entregou quatro toneladas de ração à Apipa, ao Lar do Nando, ao Instituto Pauta Animal, à Casa Pet e a cem protetores independentes. Na ocasião, anunciou a preparação de um edital para castrações.
A ajuda é importante, mas também revela o tamanho da demanda. Doar ração permite atravessar uma emergência; financiar tratamentos salva animais que já estão sofrendo. Nenhuma dessas ações, entretanto, impede que novos cães e gatos sejam abandonados ou nasçam sem destino seguro.
O que acontece em Teresina se repete em cidades de todo o país: cidadãos, protetores e organizações assumem gastos, dívidas, desgaste físico e sofrimento emocional para preencher lacunas de uma responsabilidade que precisa ser compartilhada. O trabalho voluntário deve integrar a política pública, não funcionar como substituto permanente dela.
O acolhimento é apenas o começo: cada resgate exige espaço, alimentação, vacinação, medicamentos, limpeza, acompanhamento e recursos permanentes. Conheça e acompanhe o trabalho de Raíssa Protetora e da Casa Pet no Instagram.
A população das ruas também nasce dentro das casas
Nem todo animal encontrado solto nasceu na rua. Parte dessa população vem de cães e gatos que tinham responsáveis e foram abandonados, se perderam sem identificação, circulavam livremente ou nasceram de animais domiciliados que não foram castrados.
Esse ponto é decisivo porque muda o foco da resposta. Recolher apenas os indivíduos que já estão nas ruas atua sobre a consequência; impedir a entrada contínua de novos animais enfrenta uma das origens do problema.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) afirma que a ecologia das populações caninas está ligada às atividades humanas. Por isso, um programa efetivo precisa promover mudanças de comportamento, conhecer a dinâmica de cada território e combinar diferentes medidas. A própria organização alerta que abrigamento e adoção cuidam da população atual, mas não interrompem a fonte de novos animais quando aplicados isoladamente.
Adotar é assumir custos emocionais, físicos e financeiros
Um cão ou gato pode viver dez, quinze ou mais anos. Durante esse período, dependerá de alimentação, ambiente seguro, tempo, higiene, vacinação, prevenção de doenças, atendimento veterinário e cuidados compatíveis com sua espécie, idade, comportamento e condição de saúde.
Também existirão imprevistos: doenças crônicas, acidentes, tratamentos caros, envelhecimento, mudanças de residência, chegada de filhos, separações, viagens e transformações na renda ou na rotina da família. A decisão de adotar precisa incluir essas possibilidades.
Educação para a guarda responsável não significa apenas ensinar que é errado bater ou deixar faltar comida. Significa explicar, antes da adoção ou compra, que um animal demanda compromisso emocional, disponibilidade física e planejamento financeiro durante toda a vida.
Políticas educativas também precisam mostrar caminhos para os momentos difíceis. Atendimento veterinário acessível, orientação comportamental, redes de acolhimento temporário e entrega responsável quando a família realmente não consegue continuar com o animal podem prevenir abandonos. A dificuldade financeira ajuda a explicar alguns casos, mas não torna aceitável deixar um animal doente ou dependente na rua.
Em outras situações, não há sequer uma emergência: pessoas abandonam porque vão viajar, porque o animal cresceu, adoeceu, envelheceu, apresentou um comportamento trabalhoso ou deixou de caber na rotina. Nessas circunstâncias, conscientização deve caminhar com identificação, fiscalização e punição.

O abandono aumenta nas férias?
No vídeo, Paulo Jubilut chama atenção para períodos de férias e festas, especialmente janeiro, fevereiro e julho, quando viagens e mudanças de rotina podem aumentar o abandono.
Há registros locais que sustentam o alerta. A Secretaria Municipal de Bem-Estar Animal de Canoas, no Rio Grande do Sul, informa identificar aumento nas denúncias em janeiro e fevereiro, quando muitas pessoas deixam a cidade em direção ao litoral. O Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo também já divulgou levantamento regional que apontava crescimento nos meses de janeiro e julho no Grande ABC.
Essas informações não devem, porém, ser transformadas em uma porcentagem válida para todo o Brasil. O país não dispõe de uma série nacional padronizada capaz de medir, mês a mês, todos os cães e gatos abandonados. O que os registros municipais, as campanhas de “Dezembro Verde” e os relatos dos protetores mostram é um padrão de atenção: férias não criam o abandono, mas podem revelar a fragilidade de vínculos assumidos sem planejamento.
Viajar exige prever quem ficará responsável pelo animal, avaliar hospedagem adequada ou planejar o deslocamento com segurança. Deixá-lo sozinho sem assistência, soltá-lo ou entregá-lo à própria sorte não é uma solução — é abandono.
Castração é fundamental — mas não funciona isoladamente
A castração impede novas ninhadas e pode trazer benefícios à saúde, desde que seja indicada e realizada por médico-veterinário, com avaliação, anestesia, técnica adequada, controle da dor e acompanhamento pós-operatório.
Em uma política populacional, porém, não basta oferecer poucas vagas ou promover campanhas esporádicas. É necessário estimar as populações, identificar os territórios mais vulneráveis, alcançar animais com maior probabilidade de gerar ninhadas indesejadas e manter cobertura suficiente ao longo dos anos.
O atendimento deve chegar a famílias de baixa renda, animais comunitários, colônias felinas, abrigos e protetores independentes. Também precisa ser acompanhado de identificação, registro, vacinação, orientação e monitoramento. Se novos animais não castrados continuarem sendo abandonados em uma área atendida, a população voltará a crescer.
A Lei nº 13.426, de 2017, estabeleceu a esterilização segura como instrumento da política de controle de natalidade de cães e gatos e determinou campanhas educativas sobre guarda responsável.
Em 2025, o Decreto nº 12.439 criou o Programa Nacional de Proteção e Manejo Populacional Ético de Cães e Gatos, o ProPatinhas. O programa prevê apoio técnico e financeiro para esterilização, microchipagem e registro, além de educação, prevenção do abandono e destinação ética dos animais. Entre os públicos prioritários estão organizações de proteção e protetores independentes.
O mesmo decreto instituiu o Cadastro Nacional de Animais Domésticos, operacionalizado pelo SinPatinhas. Gratuito e voluntário para responsáveis, o sistema permite cadastrar cães e gatos, emitir uma identificação e reunir informações como vacinação, castração e microchipagem. O cadastro não substitui a fiscalização, mas ajuda a produzir dados e vincular o animal ao responsável.

O que uma política integrada precisa reunir
O padrão internacional da OMSA recomenda uma combinação de medidas, adaptada à realidade local. Entre elas estão registro e identificação, regulamentação da criação e venda, guarda responsável, controle reprodutivo, vacinação, acesso ao atendimento veterinário, adoção, educação e avaliação dos resultados.
Na prática, uma estratégia brasileira consistente precisa reunir:
- educação antes e depois da adoção, inclusive nas escolas;
- castração gratuita, contínua e territorializada;
- identificação e registro dos animais;
- vacinação e atenção veterinária preventiva;
- acesso a tratamento ou encaminhamento para famílias vulneráveis;
- adoção criteriosa e acompanhada;
- alternativas seguras à entrega ou renúncia, para evitar o abandono;
- fiscalização da criação e comercialização;
- investigação e punição do abandono e dos maus-tratos;
- apoio institucional aos protetores, sem transferir a eles toda a obrigação do Estado;
- produção de dados sobre nascimentos, abandono, castrações, adoções e animais que retornam às famílias;
- metas, orçamento, transparência e avaliação periódica.
Castração sem educação pode ser anulada por novos abandonos. Educação sem acesso aos serviços deixa famílias vulneráveis sem alternativas. Lei sem identificação e fiscalização dificulta a responsabilização. A política funciona quando essas peças se conectam.

O abandono também é uma questão de saúde pública
Animais nas ruas são, antes de tudo, vítimas de uma falha humana e institucional. Eles não devem ser tratados como culpados por doenças ou usados como justificativa para violência, extermínio ou recolhimento indiscriminado.
Ao mesmo tempo, populações sem acesso regular a vacinação, diagnóstico, tratamento, abrigo e manejo podem ampliar desafios para a saúde animal e humana. O Ministério da Saúde inclui raiva, leishmaniose visceral e esporotricose entre as zoonoses de relevância acompanhadas pela vigilância.
Cada doença exige uma comunicação correta. A raiva pode ser prevenida com vacinação e vigilância. Na leishmaniose visceral, a transmissão ocorre pela picada de insetos vetores infectados; não acontece pelo simples contato direto com um cão. Na esporotricose, o fungo está associado ao ambiente e pode ser transmitido por gatos infectados principalmente por arranhões, mordidas ou contato com secreções de lesões.
Gatos doentes não são vilões. Precisam de diagnóstico, tratamento e manejo seguro — nunca de abandono, agressão ou morte. Da mesma forma, a existência de uma zoonose não transforma todo animal de rua em transmissor.

A abordagem de Saúde Única integra saúde humana, saúde animal e ambiente. Vacinação antirrábica, vigilância epidemiológica, saneamento, controle de vetores, educação, atendimento veterinário e manejo populacional ético precisam atuar de forma coordenada.
Também é importante compreender o limite institucional: segundo o Ministério da Saúde, as Unidades de Vigilância de Zoonoses não são abrigos nem serviços de atendimento veterinário de rotina e não fazem recolhimento indiscriminado. A resposta pública exige integração entre saúde, meio ambiente, bem-estar animal, assistência social, educação, segurança e justiça.
Prevenir pode custar menos do que administrar a crise
Quando o poder público não atua de forma preventiva, a conta não desaparece. Ela retorna em operações de resgate, abrigamento temporário, alimentação, tratamentos de emergência, controle de zoonoses, vacinação, atendimento a acidentes, investigação de denúncias e manutenção prolongada de animais sem destino.
A Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo orienta tratar abandono e descontrole populacional como problemas de saúde pública e afirma que castração, microchipagem e vacinação em massa ajudam a economizar recursos ao priorizar a prevenção. A OMSA recomenda que programas acompanhem custos e resultados para permitir análises de custo-benefício.
Isso não autoriza prometer uma economia específica sem cálculo local. Teresina precisaria conhecer sua população de cães e gatos, mapear abandonos, registrar atendimentos e comparar investimentos e resultados. Mas a lógica preventiva é sólida: impedir uma ninhada indesejada, identificar o responsável e manter vacinação e atendimento básico tende a exigir menos recursos e causar menos sofrimento do que resgatar, tratar e abrigar dezenas ou centenas de animais após a situação se agravar.
Por que apenas recolher os animais não resolve?
Retirar um cão ou gato da rua pode ser indispensável quando ele está ferido, doente, ameaçado ou sem condições de permanecer no local. Como política geral, porém, o recolhimento indiscriminado desloca o problema: lota abrigos, aumenta custos e não interrompe novos abandonos e nascimentos.
O manejo precisa considerar diferenças entre cães, gatos sociáveis, gatos comunitários e gatos ferais. Em colônias felinas estabelecidas, programas de Captura, Esterilização e Devolução — conhecidos pela sigla CED — envolvem captura humanitária, cirurgia, identificação, vacinação quando indicada, devolução ao território e monitoramento. Filhotes e adultos sociáveis podem ser encaminhados à adoção.
O método exige planejamento, análise do local e cobertura elevada. Se poucos animais forem esterilizados ou novos gatos não castrados continuarem sendo abandonados, a população pode voltar a crescer. Alimentar sem cadastrar, castrar e monitorar também não constitui, sozinha, manejo populacional.
Como um casal de gatos virou uma população de aproximadamente 400 gatos? – O caso de Concórdia-SC
Um caso ocorrido em Concórdia, no Oeste de Santa Catarina, tornou visível o que a reprodução sem controle pode provocar ao longo dos anos. Segundo informação atribuída pela imprensa à Prefeitura, uma aposentada de 73 anos teria começado a criar gatos cerca de dez anos antes, inicialmente com um casal. Sem castração, os animais se reproduziram dentro do apartamento até chegarem a uma população estimada em aproximadamente 400 felinos.
O relato sobre o casal inicial foi atribuído ao Município. Os comunicados do Ministério Público de Santa Catarina confirmam a existência de centenas de gatos, a superlotação, a insalubridade e a intervenção das autoridades, mas não detalham como a população começou.
Uma inspeção descreveu acúmulo excessivo de animais em ambiente insalubre e sem monitoramento adequado. Em abril de 2026, o Ministério Público, o Município e a tutora firmaram um Termo de Ajustamento de Conduta, que previa avaliação veterinária, retirada gradual, castração, microchipagem e encaminhamento dos animais saudáveis para adoção responsável.

Após o descumprimento das medidas e dificuldades de acesso das equipes, o MPSC entrou com ação judicial. A Justiça determinou a retirada integral e gradual dos gatos, inicialmente com um mínimo de 25 animais por dia. O Município passou a responder por guarda, alimentação, vacinação, tratamento, castração, microchipagem e acompanhamento até a adoção. A tutora poderia permanecer com até dois animais.
A operação foi estimada pela Prefeitura em até R$ 500 mil. Posteriormente, a Polícia Civil indiciou a mulher por maus-tratos. A Justiça também determinou acompanhamento psicológico, assistência social e avaliação psicossocial diante de indícios de vulnerabilidade.
Reprodução sem controle e acumulação animal não são a mesma coisa
O episódio reúne dois problemas relacionados, mas diferentes. A ausência de castração permitiu a reprodução; a incapacidade de reconhecer a superlotação e oferecer cuidados mínimos apresenta sinais compatíveis com acumulação animal. Proteger os gatos exige interromper o sofrimento, investigar eventuais crimes e cuidar da pessoa envolvida para reduzir o risco de reincidência.
Não é correto afirmar que todo casal produzirá 400 descendentes vivos em dez anos. Fertilidade, mortalidade, condições ambientais e cruzamentos entre parentes interferem na dinâmica. Ainda assim, o caso demonstra como a reprodução contínua e a ausência de intervenção precoce podem transformar poucos animais em uma população impossível de manejar com segurança.
O exemplo de uma cidade argentina mostra a importância do controle e castração dos animais
Almirante Brown, município da região metropolitana de Buenos Aires, não se tornou referência por realizar uma campanha isolada. Em 5 de agosto de 1996, a administração municipal iniciou uma mudança de política: substituiu a captura, o confinamento e o sacrifício de cães e gatos por um serviço público de castração e atenção veterinária primária.
A iniciativa partiu do governo municipal, durante a gestão da então prefeita Hebe Maruco, e foi desenvolvida com a participação de organizações da sociedade civil, especialmente a Red de Políticas Públicas. A população participava levando animais próprios, comunitários ou encontrados nas ruas para o atendimento.
O programa foi estruturado para que as castrações fossem gratuitas, numerosas, realizadas durante todo o ano, oferecidas precocemente e descentralizadas pelos bairros. O serviço não se restringia a animais de famílias de baixa renda: incluía cães e gatos, machos e fêmeas, com ou sem responsável. A proposta era alcançar uma parcela suficientemente grande da população animal para que o número de nascimentos começasse a cair de forma consistente.

A educação também fazia parte do atendimento. Sob a ideia de que “enquanto castramos, educamos”, as equipes aproveitavam o contato com a comunidade para orientar sobre guarda responsável, vacinação, cuidados básicos e prevenção do abandono. Assim, a castração não funcionava como uma ação separada da mudança de comportamento.
Segundo dados divulgados pelos responsáveis pelo programa, mais de 300 mil cães e gatos foram castrados entre 1996 e 2023. O município e a organização parceira também relatam redução de animais sem responsável nas ruas, de reclamações sobre cães soltos, de mordeduras e de casos de doenças entre os animais.
Foi esse processo que levou Almirante Brown a ser apresentado como um município que alcançou o chamado equilíbrio populacional. A expressão não significa que todos os animais desapareceram das ruas, mas que os nascimentos deixaram de superar a capacidade de acolhimento da comunidade, facilitando a adoção ou o reencontro dos animais encontrados.
Não há, nas fontes consultadas, uma data exata que permita afirmar em quantos anos esse equilíbrio foi atingido. Por isso, o exemplo deve ser compreendido como resultado de uma política iniciada em 1996 e mantida por quase três décadas — e não como uma solução rápida ou encerrada. As castrações continuam porque o equilíbrio populacional precisa ser preservado diante de novos nascimentos e abandonos.
A experiência também exige cautela: os resultados específicos de Almirante Brown são apresentados principalmente pelo município e pela organização que ajudou a desenvolver o programa, e não por uma avaliação científica independente. Ainda assim, o caso mostra um princípio importante: campanhas ocasionais atendem alguns animais; uma política pública gratuita, territorializada, educativa e mantida ao longo dos anos consegue alterar a dinâmica populacional.
Abandonar não é “dar liberdade”
Um animal doméstico deixado na rua não recupera uma suposta vida natural. Ele passa a enfrentar fome, sede, doenças, atropelamentos, agressões, reprodução sem controle, calor, chuva e outros riscos.
O abandono pode ser enquadrado como maus-tratos. Quando o crime envolve cães ou gatos, a Lei nº 14.064, de 2020, prevê reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda. A punição, contudo, depende de denúncia, prova, investigação e responsabilização.
Identificação e registro ajudam a reunir animais perdidos com suas famílias e podem contribuir para a rastreabilidade nos casos de abandono. Educação e serviços acessíveis atuam antes da ruptura; fiscalização e punição deixam claro que descartar uma vida dependente não é uma escolha sem consequência.

Leia também: Câmara aprova punição mais dura para quem usa veículo para abandonar animais
O que cada pessoa pode fazer
Contribuir não significa assumir sozinho um abrigo. A mudança também acontece quando cada pessoa:
- avalia tempo, espaço, custos e duração do compromisso antes de adotar;
- castra e identifica os animais sob sua responsabilidade, conforme orientação veterinária;
- mantém cães e gatos em ambiente seguro, sem acesso desacompanhado às ruas;
- vacina e oferece acompanhamento veterinário;
- planeja com antecedência quem cuidará do animal em viagens e emergências;
- busca ajuda antes que uma dificuldade financeira, clínica ou comportamental resulte em abandono;
- oferece lar temporário de forma responsável;
- apoia protetores e organizações confiáveis com doação recorrente, ração, medicamentos, transporte ou trabalho voluntário;
- compartilha animais para adoção com informações verificadas;
- cobra do município metas, orçamento e transparência para o manejo populacional;
- registra e denuncia abandono e maus-tratos às autoridades competentes
Resgatar o presente e prevenir o próximo abandono
O vídeo de Paulo Jubilut dá visibilidade nacional a uma realidade que Teresina conhece de perto. Raíssa, Fernando, a Apipa e tantos protetores independentes continuam salvando os animais que chegam hoje. A responsabilidade da sociedade e do poder público é fazer com que, amanhã, menos animais precisem ser resgatados.
Castração é indispensável, mas não educa quem abandona. Punição é necessária, mas não substitui atendimento acessível. Abrigos acolhem emergências, mas não comportam uma entrada infinita. Uma resposta séria conecta prevenção, cuidado, responsabilização e dados públicos.
Resgate é urgência. Castração, identificação, vacinação, educação, acesso veterinário, fiscalização e políticas permanentes são prevenção. As duas frentes precisam caminhar juntas para que o amor e o sacrifício de algumas pessoas não continuem sendo usados como substitutos de uma responsabilidade coletiva.
Fontes: vídeo “Por que tem tanto animal de rua no Brasil?”, de Paulo Jubilut, Prefeitura de Teresina — entrega de ração e anúncio de edital de castração, Portal 343 — relato de Raíssa Rocha e Casa Pet, O Dia — rotina e custos do Lar do Nando, Lei nº 13.426/2017, Lei nº 14.064/2020, Decreto nº 12.439/2025 — ProPatinhas e Cadastro Nacional, SinPatinhas — serviço oficial, padrão da Organização Mundial de Saúde Animal para manejo populacional de cães, Ministério da Saúde — vigilância, prevenção e controle de zoonoses, Prefeitura de Belo Horizonte — manejo estratégico de cães e gatos, Secretaria da Saúde de São Paulo — prevenção, saúde pública e economia de recursos, Prefeitura de Canoas — aumento de denúncias durante as férias de verão, CRMV-SP — abandono nas férias de janeiro e julho no Grande ABC, Más Comunidad — experiência de Almirante Brown, estudo sobre esterilização em Buenos Aires e Grande Buenos Aires, MPSC — ação no caso dos cerca de 400 gatos, MPSC — decisão para retirada dos animais, UOL — custo estimado da operação, Revista Cães & Gatos — relato atribuído ao Município sobre o casal inicial e reel de Raíssa Protetora e Casa Pet.
Foto de Capa: Canva.com

