Dois veterinários realizando exame de ultrassom em um cão da raça Pomeranian em uma clínica veterinária.

Alteração no fígado pode aumentar o risco de cálculos urinários em cães

Estudo com cães diagnosticados com hipoplasia primária da veia porta encontrou cálculos em 29% dos casos e reforça a importância de urinálise e exames de imagem no acompanhamento.


Uma alteração congênita nos vasos que levam sangue ao fígado pode deixar sinais também no trato urinário. Um estudo publicado no Journal of Small Animal Practice encontrou cálculos urinários em 29% dos cães avaliados com hipoplasia primária da veia porta.

A pesquisa reuniu prontuários de 15 hospitais veterinários de referência do Reino Unido. Entre 14 cães incluídos, quatro apresentavam urolitíase — o nome médico para a formação de cálculos no sistema urinário — e todos esses quatro também tinham cristais na urina.

O resultado chama atenção, mas precisa ser interpretado com cuidado: a amostra foi pequena. O estudo não significa que 29% de todos os cães com a alteração desenvolverão cálculos. Ele identifica um risco relevante naquele grupo e aponta o valor do monitoramento.



A veia porta transporta até o fígado sangue vindo de órgãos como intestino, baço e pâncreas. Esse sangue carrega nutrientes e substâncias que serão processadas pelo organismo.

Na hipoplasia primária da veia porta, também chamada pela sigla PPVH em inglês, parte dos pequenos ramos desse sistema vascular não se desenvolve normalmente. Com isso, o fluxo de sangue para o fígado pode ser reduzido.

A intensidade varia entre os animais. Alguns cães podem ter poucos sinais, enquanto outros apresentam alterações gastrointestinais, crescimento abaixo do esperado, mudanças neurológicas relacionadas ao acúmulo de toxinas ou hipertensão portal.

O diagnóstico exige avaliação veterinária e pode envolver exames de sangue, ultrassonografia, tomografia e análise do tecido hepático. Outras alterações vasculares, como desvios portossistêmicos, precisam ser investigadas porque podem produzir achados parecidos.


O fígado participa da transformação de amônia em ureia e do metabolismo do ácido úrico. Quando o sangue não passa adequadamente pelo órgão ou a função hepática está comprometida, substâncias que normalmente seriam processadas podem permanecer em maior quantidade na circulação e chegar à urina.

Esse ambiente favorece a formação de cristais e cálculos, especialmente os compostos por biurato de amônio. No estudo, três dos quatro cães com urolitíase apresentavam cristais desse tipo; o quarto tinha cristais de bilirrubina.

Os pesquisadores registraram cálculos na bexiga em três cães. Um deles também tinha múltiplos cálculos obstruindo os ureteres, tubos que conduzem a urina dos rins até a bexiga.


 Infográfico mostra em quatro etapas como uma alteração na veia porta pode favorecer cristais e cálculos urinários em cães
Esquema simplificado mostra como a redução do fluxo portal pode alterar o processamento de amônia e uratos e favorecer cristais e cálculos. Essa associação não ocorre em todos os cães. Crédito: Infográfico: Que Papo é Esse, Bicho? / ilustração produzida com auxílio de IA generativa; conteúdo revisado com base no estudo.

Nota de precisão: a arte apresenta uma via biológica simplificada e possível; não deve ser interpretada como prova de que todo cão com hipoplasia primária da veia porta desenvolverá cálculos.



Todos os cães com cálculos tinham sinais gastrointestinais, mas apenas metade apresentava sintomas no trato urinário inferior, como sangue na urina ou aumento da frequência de micção.

Isso ajuda a explicar por que os autores defendem urinálise e diagnóstico por imagem na avaliação rotineira de cães com hipoplasia da veia porta. Esperar o aparecimento de dor, dificuldade para urinar ou sangue visível pode atrasar a identificação.

No grupo estudado, os desvios portossistêmicos adquiridos também foram mais frequentes entre os cães com cálculos: apareceram em metade deles, em comparação com 10% dos cães sem urolitíase.


Quatro de 14 cães correspondem a aproximadamente 28,5%, arredondados para 29%. É um achado importante, mas ainda baseado em poucos indivíduos e em casos atendidos por hospitais de referência, que podem concentrar quadros mais complexos do que uma clínica geral.

Além disso, o estudo foi retrospectivo: os pesquisadores revisaram casos registrados entre 2010 e 2023. Esse tipo de trabalho é valioso para encontrar padrões em doenças raras, mas depende da qualidade e da uniformidade das informações disponíveis nos prontuários.

Por isso, a pesquisa não estabelece uma regra para todos os cães nem substitui a avaliação individual. Ela oferece um alerta clínico: quando a hipoplasia da veia porta é diagnosticada, o trato urinário também merece atenção.


Profissional veterinária examina um cão em uma clínica.
Os resultados do estudo não servem como diagnóstico individual; cada cão precisa de avaliação veterinária e exames escolhidos conforme o caso. Crédito: SrA Veronica Pierce / U.S. Air Force / Wikimedia Commons.

Dificuldade ou dor para urinar, tentativas repetidas com pouco ou nenhum volume, sangue na urina, vômitos, falta de apetite e abatimento precisam ser avaliados. Uma obstrução urinária pode se tornar uma emergência.

O tutor não deve tentar dissolver cálculos mudando a alimentação por conta própria. A composição das pedras varia, e o tratamento pode envolver dieta específica, medicamentos, procedimentos para retirada e controle da doença de base.

Também não existe indicação para realizar exames repetidos em todo cão saudável apenas por causa deste estudo. A recomendação é dirigida principalmente aos animais que já receberam diagnóstico ou suspeita de alteração vascular hepática.





O trabalho mostra como os órgãos não funcionam isoladamente. Uma alteração que começa no sistema vascular do fígado pode modificar substâncias circulantes, mudar a composição da urina e favorecer a formação de cálculos.

Ao incluir a urinálise e os exames de imagem no acompanhamento, veterinários podem encontrar problemas antes que eles se tornem visíveis para a família — uma conexão importante entre diagnóstico precoce e cuidado individualizado.