Morcego-marrom-pequeno (Myotis lucifugus) pendurado em uma mina, com crescimento branco de fungo visível no focinho.

Bactérias das próprias asas podem ajudar morcegos contra fungo mortal

Cientistas testam uma combinação de bactérias benéficas encontradas naturalmente nos morcegos para tentar retardar o fungo da síndrome do nariz branco, doença que já matou milhões desses animais na América do Norte.


A proteção contra uma das doenças mais destrutivas já registradas entre mamíferos silvestres pode estar vivendo sobre o próprio corpo dos morcegos. Pesquisadores no Canadá e nos Estados Unidos estudam uma combinação de quatro bactérias encontradas nas asas de animais saudáveis para tentar dificultar o crescimento do fungo responsável pela síndrome do nariz branco.

A proposta costuma ser apresentada como um “probiótico para morcegos”. A comparação ajuda a entender a ideia: em vez de atacar o fungo apenas com uma substância antifúngica, os cientistas procuram fortalecer a comunidade de microrganismos que já ocupa a pele e as asas desses animais. Algumas dessas bactérias conseguem inibir o fungo em laboratório e podem funcionar como uma barreira biológica.

Os testes de campo ainda estão em andamento. Portanto, não existe uma cura pronta nem garantia de que a estratégia funcionará da mesma forma em todas as espécies e regiões. Mesmo assim, os resultados obtidos até aqui mantêm uma esperança importante diante de uma doença que avança há cerca de duas décadas e já matou mais de 6 milhões de morcegos na América do Norte.



A síndrome do nariz branco é causada pelo fungo Pseudogymnoascus destructans, frequentemente chamado pela sigla Pd. Seu nome vem da aparência esbranquiçada que pode surgir no focinho dos animais infectados, mas o problema não se limita ao rosto. O fungo também invade os tecidos delicados das asas e provoca lesões que comprometem funções essenciais.

As asas dos morcegos não servem apenas para voar. Elas participam da regulação da temperatura corporal, do equilíbrio de água e sais e das trocas gasosas. Quando esse tecido é danificado, o animal pode perder água com mais facilidade e ter dificuldades para manter o funcionamento normal do organismo.

O fungo prospera especialmente em ambientes frios e úmidos, como cavernas e minas usadas pelos morcegos durante o inverno. É justamente nesse período que a doença se torna mais perigosa.

Ao hibernar, o morcego reduz drasticamente seu metabolismo e sobrevive graças à gordura acumulada antes da estação fria. Ele desperta algumas vezes ao longo do inverno, mas cada despertar consome uma quantidade considerável de energia. A infecção pelo Pd aumenta essas interrupções. O animal acorda mais vezes, gasta suas reservas cedo demais e pode morrer por desidratação ou inanição antes da chegada da primavera.

Pequenas espécies hibernantes estão entre as mais vulneráveis. Entre elas aparecem o morcego-marrom-pequeno (Myotis lucifugus) e o morcego-orelhudo-do-norte (Myotis septentrionalis). Em algumas populações afetadas, as quedas ultrapassaram 90%.


Registro de um morcego-tricolor com sinais visíveis da síndrome do nariz branco.
O fungo Pseudogymnoascus destructans pode aparecer como uma camada branca no focinho, mas também atinge o tecido sensível das asas. Pete Pattavina / U.S. Fish and Wildlife Service

O tratamento experimental reúne quatro cepas bacterianas do complexo Pseudomonas fluorescens. Elas foram isoladas das asas de morcegos saudáveis do noroeste da América do Norte e selecionadas por sua capacidade de impedir ou retardar o crescimento do fungo em condições de laboratório.

O trabalho foi desenvolvido por equipes ligadas à Universidade McMaster e à Universidade Thompson Rivers, no Canadá, e aproveita conhecimentos obtidos em pesquisas anteriores. A Wildlife Conservation Society Canada também participa dos testes e do acompanhamento dos animais.

O termo “probiótico” é familiar porque costuma ser associado a bactérias benéficas do intestino humano. Neste caso, porém, o alvo é o microbioma da pele: o conjunto de fungos, bactérias e outros microrganismos que vivem naturalmente sobre o corpo dos morcegos.

Esse microbioma não é uma camada sem importância. Ele pode participar da defesa contra invasores, competir por espaço e nutrientes e produzir substâncias que limitam a multiplicação de agentes causadores de doenças. A aposta dos cientistas é aumentar a presença de bactérias que prejudiquem o Pd sem eliminar a comunidade microbiana saudável das asas.

É como reforçar uma equipe de proteção que já estava no local — mas que, sozinha, talvez não conseguisse enfrentar um invasor tão agressivo.


Aplicar o tratamento em animais pequenos, noturnos e capazes de voar exige uma solução diferente da usada em animais domésticos. Capturar e tratar cada morcego individualmente seria caro, demorado e estressante. Além disso, muitas colônias ficam em locais de difícil acesso.

Nos testes realizados em abrigos artificiais, as bactérias benéficas são liofilizadas — um processo que remove água em baixa temperatura — e misturadas a um pó de argila. À noite, enquanto os morcegos saem para se alimentar, pesquisadores usam ar comprimido para distribuir a mistura dentro das caixas onde a colônia descansa.

Quando os animais retornam, o pó entra em contato com seus corpos e asas. A convivência próxima dentro do abrigo também favorece a transferência das bactérias entre os indivíduos. Dessa maneira, o tratamento pode alcançar muitos morcegos sem que todos precisem ser manuseados.

A aplicação em colônias de verão é especialmente importante no oeste da América do Norte. Nessa região, os morcegos nem sempre passam o inverno reunidos em grandes cavernas acessíveis, como ocorre em alguns pontos do leste. Trabalhar nos abrigos de maternidade durante os meses mais quentes permite que os pesquisadores acompanhem animais marcados e investiguem se a proteção permanece até a hibernação.

Ainda é preciso descobrir com que frequência o pó deve ser reaplicado. Temperatura e umidade interferem na sobrevivência das bactérias, e cada abrigo apresenta condições diferentes. Em locais da Colúmbia Britânica, os cientistas observaram que os microrganismos benéficos podem persistir por longos períodos, possivelmente favorecidos pela camada de argila acumulada nas caixas.


Uma pesquisa de campo publicada em 2019 já havia mostrado que bactérias benéficas poderiam ajudar. Naquele estudo, realizado com morcegos-marrons-pequenos em uma mina no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, a sobrevivência aparente após o inverno foi de 8,4% no grupo de comparação e de 46,2% entre os animais que receberam o tratamento experimental.

O resultado chamou atenção, mas precisa ser lido com cuidado. O experimento usou outra preparação bacteriana e ocorreu em condições específicas. Além disso, uma parte do estudo realizada com morcegos mantidos temporariamente em recintos não encontrou a mesma diferença de sobrevivência, e fatores como peso corporal e perturbação durante a pesquisa podem ter influenciado os dados.

Isso significa que o estudo não provou uma cura universal. Ele ofereceu uma evidência importante de que manipular o microbioma das asas pode ser uma ferramenta útil — e abriu caminho para novos testes, incluindo o atual coquetel de quatro cepas.

Nos experimentos mais recentes, pesquisadores também observaram uma relação animadora: entre os morcegos infectados, aqueles com maior presença das bactérias do tratamento apresentaram menor quantidade do fungo. Agora, as equipes precisam acompanhar a sobrevivência durante o inverno, comparar diferentes locais e avaliar se a proteção se mantém ao longo do tempo.

Também será necessário verificar possíveis efeitos sobre outros microrganismos, definir doses seguras, ampliar a produção das bactérias e entender quais espécies realmente se beneficiam. Uma solução para a vida silvestre só pode ser usada em grande escala depois de demonstrar que ajuda os animais sem desequilibrar o ambiente.


 Pesquisador usando luvas coleta amostra de um morcego com um swab.
Pesquisador realiza uma coleta com swab durante a vigilância da síndrome do nariz branco. O procedimento deve ser feito apenas por profissionais autorizados e treinados. A coleta de amostras permite medir a presença do fungo e acompanhar como os morcegos respondem às estratégias experimentais de proteção. Crédito: U.S. Geological Survey / Fort Collins Science Center

A urgência aumentou em 2026. Em maio, autoridades detectaram pela primeira vez a síndrome do nariz branco perto de Fort Smith, nos Territórios do Noroeste, no Canadá. O registro mostrou que a doença alcançou uma área subártica e um dos pontos de hibernação mais ao norte já atingidos.

Em Alberta, o fungo havia sido identificado em 2022 e a doença foi confirmada no sul da província em 2024. Em fevereiro de 2026, ela também chegou à Caverna Cadomin, um dos maiores locais de hibernação da região. O governo provincial e a WCS Canada iniciaram testes com bactérias benéficas em dois pontos de Alberta em 2025.

O avanço geográfico não significa que todas as colônias terão exatamente o mesmo destino. Espécies, clima, tamanho dos abrigos e condições locais influenciam a gravidade. Algumas populações mostram sinais de estabilização depois de quedas muito grandes. Ainda assim, a recuperação é lenta: muitas espécies de morcegos têm apenas um filhote por ano.

Quando milhares de animais desaparecem de uma região, não basta uma ou duas temporadas favoráveis para repor a população.


Morcegos ocupam funções ecológicas fundamentais. Muitas espécies controlam insetos, inclusive pragas agrícolas. Outras polinizam plantas ou espalham sementes, contribuindo para a regeneração de florestas. A perda desses animais pode alterar cadeias alimentares e aumentar a pressão de insetos sobre lavouras e ecossistemas.

Mesmo os morcegos que vivem longe das cidades prestam serviços ambientais que chegam até a vida humana. Nos Estados Unidos, estimativas econômicas indicam que o consumo de insetos por morcegos poupa bilhões de dólares à agricultura ao reduzir danos e a necessidade de pesticidas.

A crise da síndrome do nariz branco também mostra como a conservação depende de diferentes áreas da ciência. Para tentar proteger os animais, pesquisadores estudam microbiologia, comportamento, fisiologia da hibernação, clima de cavernas e dinâmica de populações. O próprio microbioma das asas, antes pouco lembrado fora dos laboratórios, pode guardar parte da resposta.


Grupo de morcegos-marrons-pequenos reunidos em um abrigo.
Colônia de morcegos-marrons-pequenos (Myotis lucifugus), espécie duramente afetada pela síndrome do nariz branco na América do Norte. Morcegos vivem próximos uns dos outros em muitos abrigos, característica que permite a transferência natural de microrganismos entre os animais — mas também pode favorecer a disseminação de doenças. Foto: Tim Krynak / U.S. Fish and Wildlife Service.




O “probiótico para morcegos” é uma intervenção experimental conduzida por especialistas. Ninguém deve tentar aplicar bactérias, fungicidas, produtos domésticos ou qualquer outro material em animais silvestres ou em seus abrigos. Uma ação improvisada pode intoxicar os morcegos, destruir microrganismos importantes e espalhar doenças.

A síndrome do nariz branco não é considerada uma ameaça à saúde humana. Mesmo assim, morcegos não devem ser tocados com as mãos desprotegidas, porque podem morder quando assustados e, como outros mamíferos, podem transmitir raiva. Um animal encontrado caído, ativo durante o frio ou aparentemente doente deve ser comunicado ao órgão de fauna da região.

Quem visita cavernas precisa respeitar fechamentos e protocolos locais. Esporos do fungo podem viajar em calçados, roupas e equipamentos contaminados. Por isso, a limpeza e a desinfecção recomendadas pelas autoridades são importantes, assim como evitar levar o mesmo material de uma caverna para outra sem tratamento adequado.

Proteger abrigos de verão, locais de hibernação e áreas de alimentação também reduz outras pressões enquanto a ciência procura formas de controlar a doença.


A ideia de usar bactérias das próprias asas dos morcegos é simples de explicar, mas complexa de transformar em proteção real. Os pesquisadores precisam fazer com que os microrganismos sobrevivam no abrigo, cheguem aos animais, persistam até o inverno e reduzam o fungo sem causar novos desequilíbrios.

Por enquanto, a palavra correta é esperança — acompanhada de teste, monitoramento e cautela.

Se o método se mostrar seguro e eficaz, ele não apagará sozinho duas décadas de perdas. Poderá, porém, tornar-se uma ferramenta valiosa ao lado da proteção de habitats, da vigilância de novas áreas, de vacinas experimentais e de outras estratégias em desenvolvimento.

Para animais que atravessam o inverno com uma reserva limitada de energia, retardar o crescimento do fungo pode representar a diferença entre esgotar as forças cedo demais e alcançar novamente a primavera.