Baleia-franca adulta e filhote nadam lado a lado no litoral sul do Brasil

Baleias-francas conhecidas voltam a Torres e revelam fidelidade ao litoral gaúcho

Figa, Umbrela e Florinda foram identificadas novamente pelo Projeto Farol das Baleias. Os reencontros ajudam pesquisadores a acompanhar a reprodução, os deslocamentos e a relação desses animais com o litoral sul do Brasil.


Torres (RS), 13 de agosto de 2026 — Elas atravessam milhares de quilômetros pelo Atlântico Sul, passam parte do ano longe da costa brasileira e, depois, reaparecem em águas que já conhecem. No litoral norte do Rio Grande do Sul, o retorno de baleias-francas-austrais identificadas em temporadas anteriores está ajudando pesquisadores a reconstruir histórias que se estendem por vários anos.

Entre as visitantes reconhecidas em Torres durante a temporada de 2026 estão Figa, Umbrela e Florinda. As três já faziam parte do catálogo do Projeto Farol das Baleias, iniciativa vinculada ao Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS).




O reencontro não representa apenas uma cena emocionante para quem acompanha a temporada. Cada nova identificação acrescenta informações sobre reprodução, deslocamento, sobrevivência e fidelidade às áreas utilizadas pela espécie.

Os dados reforçam a importância do litoral norte gaúcho como parte de uma área reprodutiva da baleia-franca-austral (Eubalaena australis), onde diferentes gerações retornam durante a temporada.


Um dos destaques do monitoramento é a fêmea conhecida como Figa, identificada no catálogo do projeto pelo código FB-022.

Ela foi catalogada em 2021 e voltou a ser registrada na região em 2024. No final de junho de 2026, foi reconhecida mais uma vez pela equipe. Os registros reunidos pelo projeto mostram Figa acompanhada de filhote em diferentes temporadas, oferecendo aos pesquisadores uma oportunidade valiosa de acompanhar parte de sua história reprodutiva.

Em vez de observar somente um animal em determinado dia, a fotoidentificação permite relacionar aquele encontro a imagens feitas anos antes. A partir desse histórico, os cientistas conseguem investigar com que frequência uma fêmea se reproduz, quais áreas utiliza e se retorna aos mesmos trechos do litoral ao longo da vida.

O retorno de Figa também mostra por que pesquisas de longa duração são tão importantes. Uma única temporada oferece um retrato momentâneo. Vários anos de acompanhamento revelam relações, ciclos e mudanças que não seriam percebidos em uma observação isolada.


Comparação dos registros da baleia-franca Figa em 2021, 2024 e 2026.
As imagens feitas em diferentes anos permitem acompanhar o retorno de Figa ao litoral gaúcho. Foto: Arquivo Projeto Farol das Baleias/GEMARS.

Outras duas baleias conhecidas foram identificadas novamente em Torres durante a temporada de 2026.

Umbrela, registrada como FB-091, e Florinda, identificada como FB-109, foram observadas pela primeira vez na região em 2022. Naquela temporada, ambas estavam acompanhadas de filhotes.

Em 2026, as duas foram vistas novamente, mas estavam sozinhas no momento dos registros.

Isso não significa necessariamente que não tenham se reproduzido ou que permanecerão desacompanhadas durante toda a temporada. O monitoramento registra momentos específicos da passagem dos animais, e uma mesma baleia pode se deslocar por diferentes áreas ao longo do período reprodutivo.

A importância está no reencontro: saber que Umbrela e Florinda continuam utilizando o litoral brasileiro fornece novas peças para a compreensão de seus movimentos e de sua história individual.

A equipe espera reconhecer outras baleias já catalogadas até o encerramento dos trabalhos de campo, previsto para outubro. Os pesquisadores estão especialmente atentos aos indivíduos registrados em temporadas anteriores, pois novos avistamentos podem ajudar a estudar os intervalos reprodutivos da espécie.

Nas baleias-francas, o intervalo entre o nascimento de filhotes costuma ficar próximo de três anos, embora possa variar. Comparar os dados obtidos no Brasil com informações de outras regiões ajuda a revelar se as fêmeas que utilizam a costa do país seguem padrões semelhantes.


À primeira vista, pode parecer difícil diferenciar uma baleia-franca de outra. Para os pesquisadores, porém, cada animal carrega uma espécie de identidade natural sobre a cabeça.

As baleias-francas possuem áreas de pele espessada chamadas calosidades. Essas estruturas são colonizadas por pequenos crustáceos conhecidos popularmente como piolhos-de-baleia, que tornam seus contornos mais visíveis nas fotografias.

A disposição, o formato e o tamanho das calosidades variam de um indivíduo para outro. Quando fotografadas de cima e em condições adequadas, elas funcionam de maneira semelhante a uma impressão digital.

Algumas baleias também apresentam manchas claras ou outras características corporais que auxiliam na identificação. As novas imagens são comparadas com registros anteriores, permitindo verificar se o animal já faz parte do catálogo.

O Projeto Farol das Baleias reúne mais de 500 baleias adultas catalogadas. Em cada reencontro, os pesquisadores podem acrescentar data, localização, condição do animal, presença ou ausência de filhote e outras informações relevantes.

Foi assim que a equipe reconheceu Figa, Umbrela e Florinda e conseguiu relacionar os avistamentos de 2026 às temporadas anteriores.


O monitoramento do Projeto Farol das Baleias utiliza drones em pontos determinados do litoral. Vistas do alto, as calosidades da cabeça podem ser registradas com maior precisão, facilitando a comparação entre diferentes temporadas.

As imagens aéreas também ajudam a acompanhar pares de mãe e filhote, observar comportamentos, avaliar o estado corporal e compreender como as baleias utilizam os ambientes costeiros.

O equipamento, entretanto, precisa ser operado por equipes capacitadas e seguindo regras que reduzam a perturbação dos animais. A aproximação inadequada de drones, embarcações ou pessoas pode interferir no descanso, na amamentação e no deslocamento das baleias.

A tecnologia é valiosa justamente quando utilizada com planejamento, distância e finalidade científica. O objetivo não é provocar uma reação para produzir uma imagem impressionante, mas documentar o comportamento natural.

A mestranda Andriéli Boeira, pesquisadora do Projeto Farol das Baleias, analisa dados coletados por meio do monitoramento com drones entre 2021 e 2026. O trabalho inclui parâmetros reprodutivos, como os intervalos entre períodos de reprodução.

Ao reunir vários anos de observações, a pesquisa poderá ampliar o conhecimento sobre a população que utiliza o litoral brasileiro.


Pesquisadoras monitoram baleias-francas no Morro da Guarita, em Torres.
O Projeto Farol das Baleias utiliza pontos fixos de observação e imagens aéreas para identificar e acompanhar os animais. Foto: Projeto Farol das Baleias/GEMARS.

As baleias-francas-austrais realizam longas migrações entre áreas de alimentação e reprodução.

Durante parte do ano, permanecem em regiões frias e produtivas, onde encontram alimento. Na temporada reprodutiva, deslocam-se para águas costeiras mais abrigadas, como as encontradas no sul do Brasil.

Essas áreas oferecem condições importantes para o nascimento e os primeiros meses de vida dos filhotes. As águas mais calmas facilitam a amamentação, o descanso e o desenvolvimento dos jovens antes da viagem para regiões oceânicas.

No Brasil, a temporada ocorre principalmente durante o inverno e a primavera. Em 2026, porém, a primeira avistagem confirmada aconteceu em 5 de maio, em Torres, antes do período em que os registros geralmente começam a aumentar.

Segundo o Projeto Franca Austral, realizado pelo Instituto Australis, foi o registro mais precoce desde o início das pesquisas sistemáticas com a espécie no país, na década de 1980. Os pesquisadores alertaram que seria necessário acompanhar toda a temporada antes de tentar explicar a antecipação.

A chegada mais cedo, sozinha, não permite concluir que houve uma mudança permanente na migração. É a continuidade do monitoramento que mostrará se o episódio foi isolado ou se faz parte de um novo padrão.


Quando uma baleia é reencontrada em uma área utilizada anteriormente, os pesquisadores obtêm evidências de fidelidade ao local.

Isso não significa que o animal permaneça sempre naquela região. As baleias percorrem grandes distâncias e podem utilizar diferentes trechos costeiros durante a mesma temporada ou em anos distintos.

A repetição dos registros, entretanto, mostra que determinados ambientes continuam fazendo parte de sua rota e de sua história reprodutiva.

Conhecer essa relação ajuda a identificar áreas prioritárias para conservação, avaliar possíveis interferências humanas e orientar medidas relacionadas ao tráfego de embarcações, à pesca, ao turismo e ao uso da costa.

O acompanhamento também permite estimar tendências populacionais. Quanto maior o período de pesquisa e a quantidade de indivíduos reconhecidos, mais consistentes se tornam as análises sobre sobrevivência, reprodução e uso do habitat.

A baleia-franca-austral foi intensamente caçada durante séculos. Embora populações do Hemisfério Sul tenham apresentado sinais de recuperação depois da proibição da caça comercial, a espécie continua ameaçada no Brasil.

Entre os riscos estão colisões com embarcações, enredamentos em equipamentos de pesca, poluição sonora, degradação dos ambientes costeiros e perturbações provocadas por aproximações inadequadas.

Por isso, o retorno de baleias conhecidas é motivo de esperança, mas também reforça a responsabilidade de proteger os lugares aos quais elas continuam voltando.


Baleia-franca-austral e filhote próximos à costa.
Fêmeas de baleia-franca-austral procuram áreas costeiras abrigadas durante a temporada reprodutiva. Foto: Gregory “Slobirdr” Smith/Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0. Imagem recortada.

Moradores e visitantes do litoral norte gaúcho também podem colaborar com o Projeto Farol das Baleias.

Ao observar uma baleia, a recomendação é manter distância, evitar perseguições e não tentar se aproximar para conseguir imagens. Informações como horário, local do avistamento, direção do deslocamento e presença de filhotes podem ser úteis para os pesquisadores.

Os registros podem ser encaminhados ao perfil oficial @faroldasbaleias no Instagram. Fotografias e vídeos feitos de forma responsável também podem ajudar na localização e, dependendo da qualidade e do ângulo, na identificação dos animais.

A participação da população amplia os olhos da ciência ao longo da costa. Ao mesmo tempo, precisa ser conduzida com cuidado para que a vontade de observar não se transforme em perturbação.

As histórias de Figa, Umbrela e Florinda ainda não terminaram. Cada passagem pelo litoral acrescenta um novo capítulo, e cada reencontro permite que a ciência acompanhe vidas que atravessam anos, oceanos e gerações.

Elas foram embora, percorreram o Atlântico e voltaram. Em Torres, encontraram novamente não apenas uma área importante para sua espécie, mas pesquisadores preparados para reconhecer quem havia retornado.