No norte de Mato Grosso, na porção sul da Amazônia brasileira, uma cidade está construindo caminhos sobre as ruas para que seus habitantes mais arborícolas não precisem enfrentar o asfalto. Alta Floresta ampliará de sete para 15 suas pontes de dossel depois que câmeras registraram quase 15 mil travessias de animais silvestres em 15 meses.
“Para quem vive no alto das árvores, descer ao asfalto não é apenas mudar de caminho: é abandonar a proteção da copa e entrar em uma zona de risco.”
Alta Floresta está localizada em uma das regiões de maior diversidade de primatas do Brasil. À medida que a área urbana cresceu, avenidas, ruas e outras estruturas passaram a separar fragmentos da floresta amazônica.
Essas vias conectam bairros e pessoas, mas podem funcionar como barreiras para animais que passam grande parte da vida nas árvores. Quando as copas deixam de se tocar, macacos, marsupiais e roedores arborícolas precisam escolher entre permanecer isolados ou descer ao chão para atravessar.
No asfalto, enfrentam risco de atropelamento, ataques de animais domésticos e dificuldade para alcançar o fragmento florestal do outro lado.
Quase 15 mil travessias em 15 meses
As primeiras sete pontes artificiais de dossel foram instaladas em Alta Floresta em outubro de 2024, dentro do programa Alta Floresta Não Atropela e do Projeto Reconecta, coordenado pela pesquisadora Fernanda Abra, do Instituto de Pesquisas Ecológicas — IPÊ.
Câmeras instaladas junto às estruturas passaram a registrar a movimentação dos animais. Em 15 meses de monitoramento, foram contabilizadas quase 15 mil travessias de fauna silvestre.
Seis espécies de primatas que vivem na área urbana e periurbana utilizaram as passagens. Entre elas estão o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, espécie criticamente ameaçada, o mico-de-Schneider, o macaco-prego, o macaco-aranha, o bugio e o macaco-da-noite.
Segundo a Prefeitura de Alta Floresta, não foram registrados novos atropelamentos de primatas nos locais diretamente atendidos pelas primeiras pontes desde a instalação das estruturas.
O resultado não significa que todos os riscos desapareceram no município. Ele mostra, porém, que intervenções instaladas nos pontos corretos e acompanhadas continuamente podem devolver conectividade a trechos de floresta separados pela malha urbana.

Uma ponte “3 em 1”
As pontes de dossel não são passarelas rígidas semelhantes às utilizadas por pessoas. Elas são formadas por cordas e cabos suspensos entre postes ou árvores, criando caminhos que imitam, em alguma medida, galhos e cipós da floresta.
O modelo adotado em Alta Floresta combina três estruturas na mesma travessia. Uma delas possui cordas entrecruzadas; outra utiliza cabo de aço com cordas trançadas; e um cabo superior auxilia espécies que usam a cauda preênsil ou os braços durante o deslocamento.
Essa variedade é importante porque os animais não se movimentam da mesma forma. Alguns caminham apoiando as quatro patas, outros saltam, se penduram ou utilizam a cauda como um ponto adicional de segurança.
As câmeras também ajudam os pesquisadores a observar quais partes da ponte são preferidas por cada espécie e quanto tempo os animais levam para aceitar uma estrutura nova. Aproximar-se, recuar e experimentar diferentes caminhos faz parte do processo de adaptação.
Oito novas travessias estão sendo instaladas
A segunda fase do programa ocorre entre os dias 3 e 20 de agosto de 2026 e prevê a instalação de outras oito pontes artificiais. Ao final dessa etapa, Alta Floresta deverá contar com 15 travessias de dossel.
Quatro serão instaladas na Avenida Teles Pires, duas na Rua Raimundo Carlos de Figueiredo, uma na Avenida Jaime Veríssimo de Campos e outra na Avenida Mato Grosso.
Os locais foram definidos para reconectar fragmentos florestais separados por vias urbanas e oferecer rotas mais seguras aos animais que continuam circulando pela cidade.
A ampliação envolve poder público, pesquisadores, empresas e organizações ambientais. Além da instalação das pontes, a rede elétrica próxima às travessias será rebaixada ou isolada em dez pontos, incluindo áreas próximas a duas estruturas já existentes.
Essa medida busca diminuir outro perigo enfrentado pela fauna arborícola: os choques elétricos. Quando a vegetação é interrompida, alguns animais passam a utilizar fios como caminhos improvisados.

Conectar a floresta é mais do que evitar atropelamentos
Uma ponte de dossel protege o animal durante a travessia, mas seu efeito pode alcançar toda a paisagem. Ao reconectar fragmentos, ela facilita o acesso a alimento, abrigo e parceiros reprodutivos.
O isolamento prolongado pode reduzir a troca genética entre grupos e tornar populações pequenas ainda mais vulneráveis. Também pode afetar funções ecológicas desempenhadas pelos primatas, como a dispersão de sementes.
Muitos macacos se alimentam de frutos e transportam sementes para outras partes da floresta. Quando os animais deixam de circular, esse processo de renovação da vegetação também pode ser prejudicado.
Por isso, as pontes não devem ser vistas apenas como cordas estendidas sobre uma avenida. Elas funcionam como pequenas conexões entre partes de um ecossistema que a cidade separou.

Ciência, manutenção e participação da cidade
As estruturas precisam de inspeção e manutenção periódicas. Cordas, cabos, postes e câmeras ficam expostos ao sol, à chuva e ao movimento dos próprios animais. Sem acompanhamento, uma solução criada para proteger pode perder a eficiência ou apresentar riscos.
A participação da comunidade também faz diferença. Alta Floresta instalou placas de travessia de fauna e um painel para compartilhar com os moradores o número de passagens registradas.
O modelo desenvolvido pelo Projeto Reconecta passou a contribuir para orientações técnicas nacionais voltadas à redução dos impactos das rodovias sobre animais silvestres. A experiência mostra que planejar cidades e estradas considerando a fauna não é um detalhe decorativo: é uma medida de conservação e segurança.
Em Alta Floresta, macacos não precisam compreender engenharia para reconhecer uma boa ponte. Eles apenas precisam encontrar, acima do trânsito, um caminho que devolva continuidade à floresta.
Fontes: Prefeitura de Alta Floresta, Projeto Reconecta/IPÊ e Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute.

